Você sabe o que é um antolho? Não? É uma peça bonita que importamos dos cavalos e passamos a utilizar em nossas cabeças. Ele serve antes de tudo para limitar a visão lateral e fazer com que um animal foque em apenas uma direção. O mais incrível do antolho é que a gente passou a usá-lo de bom grado e em nenhum momento bate a curiosidade de dar uma olhadinha pra saber o que se passa um pouco mais à direita, ou até mesmo (que Deus nos perdoe), à esquerda.

Por um momento esqueça se você é oposição ou situação, golpista ou democrata, Capitão América ou Homem de Ferro. Ok, parece que eu vou falar de crise política, mas ainda não desista. Com um pouco de esforço você vai poder perceber que a discussão, além de levemente pretensiosa, é um pouquinho mais ampla.  Prometo nem tomar partido.

Será que a gente não anda perdendo a mão? Juro que outro dia mesmo ouvi alguém gritar fascista. Fascista? Sério? Depois que estourou essa tal de Lava Jato e deram o play no filme do impeachment, eu passei a ver pessoas se digladiarem. Casamentos foram desfeitos, brigas com muitas frases foram postadas e desconfio que algumas palavras feias foram pronunciadas. Em que momento a gente transformou uma discussão política em Fla-Flu? Na verdade, comparar essa “rinha de galos” com futebol não é justo, os tios do bar daqui da esquina conseguem torcer para o Flamengo ou para o Vasco e habitam o mesmo espaço, eles conseguem até rir ao mesmo tempo.

É incrível observar o quanto a gente limitou a questão política. Só existem dois lados, o errado e o certo (que obviamente é o meu). Se eu sou contra o governo imediatamente me torno coxinha, golpista, inimigo da democracia, preconceituoso e eleitor do Aécio Neves. Agora se eu tiver outra opinião, sou petista, corrupto, bandido, lulista, mortadela e comunista. Não importam os meus motivos, ninguém quer ouvir as opiniões. A partir de um “sim” ou “não” você é simplesmente encaminhado para um lado da linha e automaticamente ganha todos esses títulos.

Talvez a discussão não esteja empobrecida. Na verdade, nem existe mais discussão, você já viu alguém conseguir concluir um raciocínio? Isso acontece porque quando os meus argumentos acabam ou a sua opinião me desagrada, eu reajo de forma sarcástica e agressiva. A gente não conversa mais, ou melhor, as nossas conversas são permeadas por um processo de não ouvir. Diabos! Até outro dia eu achava que em um diálogo o  importante quanto falar era justamente ouvir. Entretanto, uma conversa hoje em dia parece uma cena entre dois atores, onde uma  guarda a deixa pra começar a falar. E se eu esperar a minha vez de falar já considere uma vitória. O que você merecia mesmo por discordar de mim era um tapa na cara.

Para manter amizades eu vi pessoas chegarem ao absurdo de combinarem um “não vamos falar desse assunto”. Que porra é essa? A gente não consegue mais divergir sem brigar? Sem discordar amigavelmente? E antes que você critique a minha análise distante, eu só queria dizer que me incluo nesse “quiprocó”. Outro dia, naquela rede social que é muito mais legal que o Facebook, eu encerrei uma quase briga com a seguinte frase: “a verdade é que vocês são dois iludidos, aparentemente desprovidos de pensamento imparcial e crítico”. Gastei todo o meu arsenal de caracteres com uma agressividade elegante.

O mais curioso é observar que tem uma rapaziada jovem envolvida nesse radicalismo. Jura que a geração que mais levantava a bandeira da diversidade não consegue compreender a multiplicidade de opiniões? Ué, mas se eu não consigo acolher nem mesmo um pensamento diferente, como posso condenar aqueles que não entendem uma orientação, um comportamento, um estilo de vida? Perdoem o meu tom alarmista, mas me assusta pensar que em algum aspecto a gente possa estar se tornando intolerante, sabe? É assustador achar que existe uma Bolsonarinho dentro de nós.

Reparem que, independente do lado que tomamos hoje, nós estávamos juntos em 2013, indo pras ruas ou não nós queríamos a mesma coisa. Na essência era tudo igual, a indignação era a mesma de hoje e desprezávamos tudo aquilo que a classe política representava. Partimos do mesmo ponto, mas chegamos a lugares diferentes. Parece que toda aquela revolta que não estava direcionada a personagens específicos foi concentrada em apenas dois lados. O que mudou? Essa guerra toda, com mocinhos e vilões emblemáticos, não ganha os contornos de uma narrativa bem escrita? Em parte essa hipótese nem é minha, foi o gênio Boechat que falou qualquer coisa do tipo outro dia de manhã. Deus sabe o quanto eu sou avesso a teorias de manipulação, mas sugiro que a gente pare pra pensar até onde essa raiva é realmente nossa. Eu não estou pedindo que vocês deixem de ter opinião, que deixem de discordar, mas um cadinho de respeito e um minuto de reflexão não fariam mal a ninguém, né? Meu maior medo é que o nosso ódio tenha sido fabricado por alguma dessas figuras que tanto detestamos. Poxa, pelo menos o ódio deveria ser algo legítimo…

 

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