No próximo dia 26 desse mês estreia no Brasil o filme baseado no segundo livro de Alice,  Through the Looking Glass dirigido por James Bobin e produzido por Tim Burton. Por isso, hoje vamos falar dos estranhos caminhos que o autor viveu para dar vida a Alice.

Há mais de 150 anos uma das mais fabulosas histórias já publicadas circulava por toda Inglaterra, As Aventuras de Alice no País das Maravilhas de Lewis Carroll, pseudônimo de Charles Lutwidge Dodgson, de longe o seu livro mais famoso. Ao longo de gerações Alice vem encantando crianças e adultos pela genialidade com que o autor apresenta o mundo fantástico do País das Maravilhas, com seus personagens intrigantes, lógicas matemáticas e as várias interpretações possíveis diante da ambiguidade do texto. Todos os detalhes que compõe a obra servem como pistas para saber o que havia na cabeça de seu criador.

Esse é o verdadeiro buraco do coelho.

Nascido em 1832 na Inglaterra, Carroll estudou matemática na Christ Church College (Universidade de Oxford) contra o desejo do pai de seguir a carreira religiosa. Logo começou a trabalhar como professor de matemática à convite da universidade, e foi em seus corredores que conheceu Alice Liddell, filha do deão Henry George Liddell. Na época Alice tinha apenas 4 anos e Lewis 24.

Carroll era apaixonado por fotografia, mais especificamente adorava tirar fotos de meninas – algumas delas nuas. Mas antes de abominarmos o fato, devemos ter em mente que tudo era feito com consentimento dos pais, e por mais bizarro que isso pareça aos olhos modernos, fotos de crianças na Era Vitoriana era algo extremamente comum, pois era enxergada aos moldes de arte. A virgindade e a inocência eram de uma pureza sagrada.

Em uma sessão de fotos organizada por Lewis, sua amizade com Alice e suas irmãs começou. Ficara encantado com o jeito rebelde da criança. A medida que a garota começava a orbitar os desejos de Carroll, ele passa a se envolver com a rotina da família e ali, ao que tudo indica, nascera uma paixão platônica para com a menina. Segundo Morton N. Cohen, autor da biografia de Lewis Carroll – “ele estava emocionalmente envolvido pelas meninas, não há dúvidas sobre isso”.

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Foi durante um passeio de barco em um dia ensolarado – que por insistência de Alice (real) em ouvir uma história -, Carroll começa as primeiras frases do que seria mais tarde o clássico da literatura. Em 4 de julho de 1865 Alice’s adventures in wonderland foi publicado. A história começa com Alice entediada vendo um coelho e passa a segui-lo até sua toca e cai no País das Maravilhas. E já desde o começo a ficção se assemelha com a realidade da mesma forma como a criatura é o seu criador. Para os críticos, a personagem Alice é a personificação do oposto (ou desejos de ser) de Carroll com traços da Alice Liddell.

“O livro em si é o fato da repressão do desejo de Carroll por Alice” – Will Self, escritor.

“Eu acredito que ele estava apaixonado por ela, mas ele não admitiria para si mesmo ”-Vanessa Tait, bisneta de Alice Liddell.

A relação do escritor com a família teve um súbito fim após a publicação do livro. A mãe de Alice queimou todas as cartas de Lewis endereçadas a ela. Não há nenhuma evidência de que Lewis tenha de fato cometido algo contra Alice, mas há uma série de fatos controversos sobre o autor que torna muito difícil não colocarmos como réu. Ao longo de sua vida ele “colecionava” crianças como amigos, e isso já era suficiente para levantar algumas sobrancelhas. Sempre rodeados de crianças, seja na casa de amigos ou em viagens, Carroll vivia seu sonho de infância longe do mundo adulto.

Porém, além da amizade ele também as fotografava. Esta foto tirada por Lewis em 1878 mostra a menina Evelyn Hatch completamente nua em uma pose muito adulta. Após a questionável foto, ele mandou para um artista colori-la, assim uma foto de uma criança nua passa a ser um nu artístico.

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A esquerda a foto original, direita a foto pintada.

Em 1873 Carroll revive Alice e publica “Alice Através do Espelho”. Para os pesquisadores não era uma questão de dinheiro, mas sim um desejo de manter contato com seu desejo de infância.

Talvez nunca saibamos a verdadeira natureza de Lewis Carrol, por mais que duvidemos de sua índole, foi o resultado de suas experiências de vida que resultaram em um dos clássicos da literatura mundial.

Conclusão:

É um problema quando temos uma boa obra de arte, mas não uma boa pessoa como autor. Em certos aspectos foi difícil aceitar tal fato vindo de uma mente tão brilhante. A literatura de Lewis Carroll captura brilhantemente como uma criança reage ao mundo, mesmo quando crescemos ele transcende as barreiras entre o sonho e a realidade, as tornando porosas, assim podemos ver como ele rascunhar maravilhosamente bem a psicologia de cada situação. Afinal como diz a protagonista “As vezes, eu penso seis coisas impossíveis antes do café da manhã”. Alice ainda vai perdurar em nossas mentes por muitas gerações como um sonho, mas para o autor como um pesadelo.

Ressalva: Eu amei White Rabbit do Jefferson Airplane na voz da P!nk.

Fonte: Documentário “The Secret World of Lewis Carroll”, BBC, Londres.