Certa vez ouvi de um amigo que você só tem um grande amor na vida inteira, se isso for verdade eu até entendo o desespero de JP. Boa parte desse terror a gente pode jogar na conta da ficção, que teima em pintar príncipes encantados por aí. Ninguém conta que é possível se apaixonar por um(a) canalha (além de possível, é provável, inclusive acho que alguém deveria investigar o poder que os(as) canalhas têm sobre a gente).

JP sempre morreu de medo que Leninha fosse o grande amor da sua vida. Não interessa saber como a história começa, o desenrolar é o que realmente importa. Para os que ainda são românticos, esclareço apenas que os dois não se conheceram como na novela, não foi amor à primeira vista e ninguém ouviu sinos no primeiro beijo. Essa não é uma história tradicional e não terá final feliz. Não sei se eu deveria falar do final agora no início. Na verdade, vou até entender se você desprezar esse estilo de narrativa e não quiser continuar lendo, pra ser sincero eu também nunca vi ninguém usar tanto a primeira pessoa pra contar algo que aconteceu na vida dos outros. Vou fazer um esforço enorme pra me manter imparcial, mas não garanto que terei sucesso, passei um longo tempo ao lado de JP e talvez tenha adquirido um pouco da sua perspectiva.  

Se aquilo não foi um namoro, sejamos sinceros, Leninha pelo menos deu os sinais de que viraria, e JP embarcou naquela relação em que um ama mais do que o outro. Foram cinco meses que seguiram a cartilha de um casal normal, eles iam ao cinema, teatro, jantavam juntos e se falavam todo dia. Ele, tolamente apaixonado, talvez soubesse que ela não estava na mesma sintonia, mas existia um qualquer coisa que permitia apostar no sucesso dos dois. Por favor, não vamos tomar JP como um iludido, ele tanto não é assim que no último mês foi percebendo que a menina se afastava, o evitava levemente, naquela atitude covarde de quem não tá disposto a fechar totalmente uma janela. Não lembro se já disse que o nosso mocinho (olha eu tomando partido de novo) sempre teve um senso de dignidade enorme, ao perceber que estava tomando um gelo resolveu facilitar e acabou tudo. Talvez “acabar tudo” seja exagero da minha parte, JP simplesmente parou de procurá-la e os dois nunca mais se falaram. Arrancar o band-aid e sentir a dor toda de uma vez é sempre melhor do que ir sofrendo aos pouquinhos. Tempos depois ele ficou sabendo que durante o período em que estiveram juntos Leninha também ficava com outro cara. Como ele reagiu ao descobrir a traição? Bem, até. Imaginar o pescoço de Leninha quebrado em muitas partes não é a mesma coisa que quebrar o pescoço de Leninha em muitas partes.

Ela até mandou uma mensagem certa vez querendo “explicar as coisas”, mas ele, fechado naquela armadura de autopreservação, não quis conversa. O amor também morre de inanição, se a gente não alimentar ele acaba, certo? Errado. JP jamais superou Leninha.

Aí você vai dizer, “poxa, mas sete anos depois esse cara ainda não esqueceu alguém com quem ficou por menos de seis meses?”. Não foi por falta de tentativa. Na intenção de ajudar outras pessoas vou compartilhar aqui os métodos fracassados. Pra início de conversa ele excluiu o número dela do WhatsApp, quem tem um amor mal curado sabe que essa é uma medida inteligente dado os porres homéricos que tomamos por aí. Também parou de segui-la no Facebook (acabar de vez com a amizade daria muita bandeira), dessa forma não seria obrigado a topar com seu rosto perdido na timeline ou, pior, ficar sabendo de uma atualização de relacionamento (ela começou a namorar dois meses depois do término, mas não foi pelo Facebook que ele descobriu). Adiantou? Muito pouco. A verdade é que essas medidas são inócuas, quando a bad é mais forte a gente dá uma de stalker e se atualiza de tudo o que perdeu.

Mas não vamos pensar que nesses anos todos JP ficou se martirizando e sofrendo por causa dela, doeu por um período, é verdade, mas passou longe daquela depressão de término de relacionamento. Ele viveu, viveu bastante até, ficou com outras mulheres, se apaixonou algumas vezes, engatou pequenos namoros, mas ela continuava a habitar o submundo da sua mente. Agora vocês me respondam, pois eu e ele já desistimos de entender, se Leninha nem de longe foi a mais inteligente, a mais bonita, a mais divertida, muito menos a melhor pessoa que JP já conheceu, por que diabos ele continua apaixonado? Por que é possível percebê-la na cor da pele, no jeito de falar e no cabelo ondulado das outras pessoas? E o pior, Leninha virou parâmetro de prazer, ela esteve dentro de toda mulher com quem JP já ficou, e agora é impossível deixar de comparar cada sensação, cada toque e cada beijo com o dela.

Se você for um ser humano muito evoluído é provável que esteja achando JP um carente necessitado de terapia. Justiça seja feita, durante esse tempo todo ele guardou esses sentimentos só pra si, não deu pinta de idiota pra mais ninguém. Se eu torno essa história pública é por um fato dos mais inesperados que aconteceu por esses dias: Leninha voltou.

Ele corria na esteira da academia quando ela entrou. Sete anos poderiam significar sete minutos, porque ela continuava do mesmo jeito. Mais bela talvez. A velocidade de 10.2Km/h teve que descer pra 6, já que JP se embaralhava nas próprias pernas e cair no reencontro não seria nada elegante. Eles não se falaram imediatamente, mas como o destino gosta de ser indelicado, lá pelas tantas ela veio correr na esteira da frente. Ridiculamente suado e com uma frequência cardíaca preocupante, JP observava atrapalhado. Sete anos poderiam significar sete minutos. Sabe Deus como, Leninha olhou pra trás, sorriu e desceu da esteira. Não vou reproduzir aqui o diálogo travado, acho que nem o pobre rapaz conseguiria, o que interessa é que os dois falaram um belo grupo de abobrinhas e por sugestão dela atualizaram os números. O fantasma de Leninha agora se materializava no telefone e em menos de 12 horas uma conversa foi iniciada. Falaram-se durante dias até alguém sugerir um café, talvez tenha sido ele, mas te garanto que ela, como sempre, deu condições.

Provavelmente esse é o início do ponto alto da nossa história, temos JP na mesa da cozinha, com três bolos diferentes e a máquina de Nespresso em cima da pia. Temos Leninha na porta em dúvida se bate ou toca a campainha. Há um tempo, convidar para “ver um filme” era sinônimo de sexo, hoje chegamos ao café, às vezes a gente sente essa necessidade de disfarçar o óbvio. Eles conversaram no sofá em frente aos dois tipos de bolo (apresentar o terceiro poderia parecer um pouco de ansiedade) e foi iniciativa dela dar o primeiro beijo. A coisa toda deve ter durado uns 15 minutos (não há motivos pra eu ficar exagerando as habilidades de amante de JP), havia muito guardado e nessas horas a gente não consegue segurar por muito tempo. Pelo menos, até onde sei, foi bom para os dois. Ficaram um tempo em silêncio, JP pensava e Leninha… desculpa, é impossível traduzir Leninha.  Ele fitou o seu rosto por mais um instante, ela sorria. No sorriso dela ele viu tudo. Tudo. Talvez ela se preparasse pro segundo ato e já ia se aproximando quando ele levantou. Caminhou calmamente até porta, abriu, e numa voz de quem tem certeza disse:

– Sai.

Ela teve um momento de hesitação antes de ouvir a segunda ordem, dessa vez num volume que beira o grito:

– Sai.

Ela juntou o que podia e parcialmente vestida foi embora. Na verdade nunca esteve. JP acabava de exorcizar um demônio, não é que a partir disso ele fosse esquecê-la, mas o reencontro serviu pra ter certeza que se longe era difícil, ao lado dela era ainda mais impossível ser feliz. Leninha é tóxica, desperta a pior parte dele e deveria ser evitada. Talvez sua única missão fosse passar e deixar algo significante na vida de JP. Nem que fosse essa história.