Meninas? Por que só meninas? Quarto 28? Por que razão o número 28? Primeira atitude: site de buscas. Primeira resposta (em resumo): Theresienstadt. Primeira ligação com toda a história: Segunda Guerra Mundial. Esse período histórico, muito falado durante naquelas aulas de História, e até Geografia, é mais familiar que os dois primeiros. Porém, ao ir mais a fundo nessa história cheia de indagações, percebemos que não é tão “família” como se pensa – ou se acredita que seja a partir das vivências

Abrindo a galeria da exposição “As Meninas do Quarto 28” é possível olhar, mesmo antes do mergulho na história principal, quase como um giro de 180 graus os primeiros elementos. Do lado esquerdo, o fio condutor de todo o caminho: Hannelore Brenner. Ela, que é autora do livro que deu origem à exposição em alemão, conheceu algumas das meninas durante a apresentação de uma ópera, no ano de 1996. Bem ao lado, há a foto de uma família judia caminhando de encontro ao portal de entrada: “arbeit macht frei”. Tal frase, em alemão, traduzida, acompanhava a ilusão de que “o trabalho liberta”, enquanto os judeus eram forçados pelos nazistas a seguir para os guetos e campos de concentração sem nem sequer saber o que realmente os esperavam

Completando a “meia volta”, fotos e frases dividem o lado esquerdo da primeira parte da exposição. São famílias. São mulheres. São meninas. Duas delas, em evidência no mural de fotografias, Erika Stranská e Helga Pollak, nascidas em 1930 em cidades distintas da Europa, foram separadas brutalmente de seus familiares e deportadas para a antiga fortaleza de Theresienstadt. Durante dois anos, mais de 15 mil crianças, assim como Erika e Helga, viveram nesse gueto durante a Segunda Guerra Mundial. Agora, antes de avançar pela galeria, as perguntas já começam a encontrar o rumo das respostas.

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Os dias em Theresienstadt passavam longe de serem fáceis. Quiçá para as crianças. Além do trabalho diário pesado e do boicote dos oficiais alemães às aulas de base, as meninas conviviam com o sonho da liberdade. Liberdade que elas nem tão cedo conseguiriam, mas que com o apoio dos judeus, que usaram os seus conhecimentos artísticos (as aulas de arte eram as únicas que os nazistas permitiam no gueto), tinham sua rotina amenizada com as atividades. As “cuidadoras” ajudavam as meninas a encontrar na música e na arte a força para expressar seus medos e anseios. Entre elas, Friedl Dicker-Brandeis foi uma grande motivadora da arteterapia entre as crianças. Sua dedicação com cada um dos trabalhos era tão constante que, antes de ser deportada para Auschwitz, o “temido leste” deixou uma mala com mais de três mil desenhos.

Apesar de os tempos terem sido de guerra, o canto de esperança, de amizade e de sobrevivência ecoava entre as meninas no alojamento L 410. A mostra é repleta de pontos altos, mas é na réplica de 18m² do Quarto que o verdadeiro ápice acontece: enquanto o visitante entra na réplica e pode deitar nas camas, é possível conhecer a essência que há por trás da sociedade Ma’agal. O “círculo” foi criado como juramento de amizade para servir de motivação entre as próprias meninas. No entanto, com a proximidade do fim da guerra, quatro delas que ainda estavam no Quarto 28, dividiram a bandeira de sociedade em quatro partes; prometendo juntá-las em Praga. O destino delas e a bandeira você confere na exposição, que estará em cartaz no Museu Histórico Nacional, no centro do Rio, até o dia 17 de julho.

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Explorando um pouco mais essa história, o elo da exposição com o Brasil foi ligado em 1974. Em uma viagem com a família, Monika Stranska Zolko reconheceu a assinatura da irmã, Erika Stránská, em um dos desenhos que figuravam o campo de concentração de Theresienstadt no Museu Judaico de Praga. Somente em 2012, quando o diretor do museu facilitou o acesso aos desenhos e à lista de nomes que ajudariam a reconstruir os detalhes de época, foram encontrados mais 30 desenhos de Erika no acervo. Por conta desse “achado do destino”, Karen Zolko, curadora de exposição junto de Dodi Chansky e Roberta Sundfeld, além de ter conseguido fazer ponte com Hannelore Brenner, quer levar a exposição para outras cidades brasileiras – após mobilizar mais de 30 mil pessoas em São Paulo, Porto Alegre e Brasília – e desenvolver, principalmente entre os jovens, um assunto ainda pouco falado: os horrores do Holocausto.

Serviço

Exposição “As Meninas do Quarto 28”

Em cartaz de 13 de abril a 17 de julho de 2016

Comitê curatorial: Dodi Chansky, Karen Zolko e Roberta Sundfeld

Concepção: Hannelore Brenner

Endereço: Museu Histórico Nacional

Praça Marechal Âncora, s/n, Centro – RJ

Horário: De terça a sexta-feira, das 10h às 17h30, e aos sábados, domingos e feriados, das 14h às 18h

Valores: R$ 8,00 (oito reais). Aos domingos, a entrada é franca.