A primeira coisa que precisa ser dita sobre esse texto é que ele foi iniciado em maio deste ano. Não que eu tenha passado os últimos quatro meses escrevendo, pela qualidade prosaica você vai perceber que não, mas naquela época surgiu um fato que iniciou a pesquisa que será apresentada nas próximas linhas. Para ser ainda mais preciso foi em 16/05/2016, data em que o governo, do então interino presidente Temer, lançou o seu logotipo oficial:

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Esquecendo por um momento que essa marca, capaz de agradar apenas uma criança de sete anos, parece ter sido feita no degradê do Power Point, a sensação que mais tive ao olhá-la foi a de sufocamento. Causou-me um incômodo enorme esse globo opressor pairando sobre todo um país. Mas nem era esse o ponto principal, como se não ganhasse destaque suficiente no logo, o lema “Ordem e Progresso” foi adotado como slogan da nação. É aí que a porca torce o rabo.

Já de algum tempo eu sabia (para não parecer muito soberbo vou logo adiantando que aprendi em uma questionável aula a distância de Filosofia) que “Ordem e Progresso” é a redução do principal lema do Positivismo e deriva da obra de Augusto Comte:

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Arte da Superinteressante

Quando tomei ciência que o lema da nossa bandeira era uma síntese das frases acima, a primeira coisa em que pensei foi “meu Deus, o que fizeram com o ‘amor’??”. Como poderiam ter deixado de fora a palavra mais importante do trecho inteiro?

Aí sim começou a pesquisa que motivou esse texto (e que foi abandonada três dias depois sem um final muito feliz). Depois de tanto tempo, me pareceu interessante desengavetar essas anotações e contar a história justamente hoje, neste sete de setembro.

O Positivismo foi uma corrente filosófica surgida na Europa no século XIX e que encontrou no francês Augusto Comte o seu principal representante. Repleta de preocupações sociais, essa filosofia queria organizar a sociedade por meio da eliminação das desigualdades. Atendendo aos ideias republicanos, no Brasil o movimento ganhou força a partir de 1850 (alguns chegam a dizer que, depois da França, nós fomos a pátria do Positivismo) e teve grande influência sobre os líderes responsáveis pela Proclamação da República. Décio Vilares, Teixeira Mendes,  Miguel Lemos e Manuel Pereira Reis, que criaram a nossa bandeira em 19 de novembro de 1889, eram tão adeptos dessa corrente que refletiram o seu principal lema no símbolo máximo do país.

Bom, até agora entendemos como “L’amour pour principe et l’ordre pour base; le progrès pour but” encontrou espaço nas terras tupiniquins, mas nada ainda foi dito sobre como acabamos reduzidos à “ordem e progresso”. Apesar desse texto se propor à responder essa questão, antes é interessante observar quantos movimentos ao longo da história foram feitos por pessoas que, conhecendo o que realmente pregava Comte, tentaram incluir o “amor” na bandeira. Noel Rosa e Orestes Barbosa compuseram uma música, Jardes Macalé fez um CD chamado “Amor, Ordem & Progresso”, em 1991 Darcy Ribeiro (aquele mesmo) enviou ao Congresso um Projeto de Lei, e, no início da década, Chico Alencar enviou outro (o PL 2179 de 2003, que neste momento deve tramitar dentro de alguma gaveta de Brasília). A iniciativa mais recente é a campanha “Inclua amor na bandeira” (de onde tirei a foto de capa), coordenada por Carlos Alberto Emediato e que reúne na internet um abaixo assinado com, até agora, 1400 participantes.

“O amor vem por princípio, a ordem por base/ O progresso é que deve vir por fim/ Desprezastes esta lei de Augusto Comte/ E fostes ser feliz longe de mim”

A maior parte dos movimentos, ou dos projetos de lei, defende que a redução do lema de Comte à duas palavras faz perder a essência do Positivismo, descaracteriza toda uma filosofia. “O amor procura a ordem e leva ao progresso; a ordem consolida o amor e dirige o progresso; o progresso desenvolve a ordem e conduz ao amor”.

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Mas a pergunta, que parece esquecida, ainda repercute: por que não deixaram uma vaga para o amor na bandeira? Fui até os confins da internet (na verdade foi só até o sétimo “o” do Google) tentando buscar algum fato histórico (de uma fonte confiável) que justificasse o motivo. Apesar de não ter achado quase nenhuma resposta, a mais plausível foi a que seria uma camisa de força incluir amor como lema de uma República que, pelo menos naquele momento, para se estabelecer deveria dar combate ao Império (achei isso no bom texto de Paulo Ghiraldelli). A outra justificativa, mais decepcionante e que poderíamos chegar sozinhos, é que escrever “amor” na bandeira de um país que pretendia ser sério, hétero e pungente não seria nada inteligente (“amor, ordem e progresso” deixaria as coisas viadas pra caralho).

Tolos militares do século XIX, poucos são os países que se dão ao luxo de ter algo escrito em suas bandeiras. Imaginem só que linda (e forte) seria a nossa, a única nação do mundo, a adotar o amor como princípio.

É óbvio que ninguém aqui é utópico a ponto de acreditar que a inclusão de uma palavra na bandeira seria capaz de alterar o comportamento ou o destino de um país inteiro, mas não é curioso pensar que justamente nós, que abrimos mão do amor no nosso símbolo máximo, também pareçamos tão desprovidos de amor atualmente? Não é simbólico que tenhamos desconsiderado o amor como princípio? Áspero, ríspido e autoritário, o ditatorial “ordem e progresso” sempre soou para mim como o algo que conduz operários a marchar em direção à uma máquina gigantesca. De novo, é provável que a inclusão de “amor” na bandeira não alterasse em nada as nossas vidas, mas pense no quanto é representativo ter uma palavra desse peso como horizonte. Serviria no mínimo para embasar discursos. Se já é um absurdo hoje, imagine só se uma nação, que tem por princípio o amor, seria capaz de negar direitos a pessoas que se amam? Como ela admitiria ter milhões de miseráveis? As autoridades poderiam reprimir pessoas de maneira tão violenta? Algum habitante morreria por causa da cor da sua pele? Os políticos desse país poderiam lesá-lo de forma tão descabida? Como um lugar com tanto amor admitiria que mais da metade da sua população não é capaz de ler e entender essas linhas até o final?

O amor, essa coisa maravilhosa que é capaz de dar origem a outros filhos nobres, como a solidariedade, a compaixão, a empatia, o altruísmo, o respeito, a harmonia. O amor que é capaz de apaziguar as coisas, reunificar um país (de verdade), de curar uma nação doente. O amor que os poetas podem falar muito melhor que eu.

Falta amor. Mais amor.

Não sou um homem que acredita em simbolismos, mas sei lá… Acho que vou assinar a petição.

Inclua amor na bandeira >>> http://incluaamornabandeira.org/

Fontes, fontes e fontes:

http://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2012/12/19/suplicy-quer-frase-amor-ordem-e-progresso-na-bandeira-nacional.htm

http://www.em.com.br/app/noticia/especiais/educacao/enem/2016/05/14/noticia-especial-enem,762612/a-ordem-e-progresso-de-temer-e-o-positivismo-no-brasil.shtml

http://mundoeducacao.bol.uol.com.br/historiadobrasil/simbologias-bandeira-nacional.htm

http://revistamandala.com.br/a-inclusao-do-amor-na-bandeira-do-brasil/

http://www.camara.gov.br/proposicoesWeb/prop_mostrarintegra;jsessionid=01F425E770586B1D781391230C30E87E.proposicoesWeb1?codteor=174266&filename=Avulso+-PL+2179/2003

http://correio.rac.com.br/_conteudo/2013/07/colunistas/cecilio/79527-e-o-amor-na-ordem-e-progresso.html

http://www.melhordizendo.com/ordem-e-progresso-marketing-politico-de-epoca/

https://www.facebook.com/ondeestaoamor/photos/?tab=album&album_id=615884341791731

Não foi uma fonte, mas é um contraponto interessante: http://www.gazetadopovo.com.br/opiniao/artigos/ordem-e-progresso–e-o-amor-66ux6i0vfzzt3sywxws6bjkob