Não, candidato, diferente do que aparece na sua propaganda da TV, não está tudo bem. Por mais que a fotografia seja belíssima, que tenhamos tomadas aéreas muito bem produzidas e que os atores sejam convincentes, o tom otimista não condiz com a realidade. Ok, de alguma forma a gente já deveria estar acostumado com o seu discurso de situação. É necessário dar o tom de continuidade e só se continua o que é bom, mesmo assim, talvez por termos os pés demasiadamente fincados no chão, algo não nos desce. As tais Clínicas da Família, que o senhor vende como o mais revolucionário projeto de saúde do mundo, não possuem nem de longe um atendimento tão eficiente assim. As Escolas do Amanhã não escondem os problemas do hoje, e dessa forma o Rio continua com números patéticos no Ideb. E o VLT, esse trenzinho para inglês passear, é uma das maiores idiotices que o homem já conseguiu construir. Uma obra de ostentação. Mais de 1 bilhão de reais gastos para bancar uma proposta que poderia ter sido viabilizada através de um corredor de ônibus. Falando em ônibus, o quanto mais de subserviência a sua futura prefeitura prestará às empresas? Quantos cartéis continuaremos a manter? Quantas “racionalizações” que ninguém entende, nem concorda, faremos nas linhas? Não está tudo bem, candidato. Ah, e também não foi um simples desentendimento de casal.

Se não está tudo bem com esse aí de cima, duvido muito que as coisas mudem com o senhor, outro candidato. A sua voz de dublador de série norte-americana, não é capaz de disfarçar um discurso demagogo e vazio. Não sei onde fica Canaã ou do que se trata o Cimento Social, mas tudo o que não precisamos agora é de populismo e canastrice. A fórmula foi esgotada no âmbito federal. E apesar do senhor se pintar de honesto, lá no fundo a gente sabe que é feio conseguir votos através do pastoreio de ovelhas. Sua face previamente mumificada não é capaz de esconder uma lavagem cerebral religiosa e o apoio Universal.

Mesmo que a senhora represente um projeto com resquícios de esquerda, também não está tudo bem, candidata. E as coisas tendem a ficar ainda piores se metade do seu tempo de propaganda é usado para atacar o governo federal e se na outra metade a senhora roda de saia cantando com todas as minorias que conseguiu encontrar. A gente já entendeu que você se manteve fiel a um projeto de governo que fracassou, e até reconhece essa fidelidade que, na política, é algo raro. Agora, além de gritar e pedir a saída de um questionável presidente, seria bacana ouvir as suas propostas para a cidade. Falando nisso, candidata, como faz para gerir uma cidade que depende de recursos de um governo que a senhora não para de chamar golpista? Caso prefeita, o que estará em primeiro lugar, o nosso bem-estar ou a sua ideologia?

Radicalismo e um sobrenome também não irão transformar as coisas, candidato. Assisti a todas as suas falas e até agora não entendi como distribuir armas à Guarda Municipal pode combater a violência. Na verdade, me parece que essa medida só é capaz de alimentar a imensa máquina de moer pretos, tão admirada por aqui. Elevar o tom de voz contribui apenas para que a gente perceba o seu despreparo, o seu grave problema de dicção e o quanto, a cada dia que passa, o senhor se parece ainda mais com o seu pai. Isso nem é bom.

Preciso dizer que apesar de ter aberto mão do terno e gravata, a sua camisa sempre sempre preta não lhe aproxima da gente. Talvez até o senhor queira se convencer do contrário, mas aí vai uma novidade: você é só mais um político e não há roupa que mude isso. Aproveitando a oportunidade, gostaria de entender como o senhor pretende combater o desemprego formando 100 mil jovens em cursos “tecnológicos”. Até então achei que se combatia desemprego criando postos de trabalho e não futuros desempregados.

Uma dica de honestidade, candidato, estive vendo uma de seus comerciais por esses dias e percebi que ao apresentar a sua desconhecida biografia, falta dizer que o senhor participou ativamente, como Secretário Estadual de Transportes, do governo que agora combate. Não está tudo bem, candidato, mas o senhor contribuiu para isso, omitir a sua participação faz com que a gente, injustamente, não possa lhe dar a sua parcela de mérito.

Depois de dedicar parágrafos inteiros aos outros, fico até constrangido de reservar tão pouco espaço ao senhor, último candidato. Imagino que quatro linhas sejam mais do que o suficiente para dizer-lhe algo duro: também não vejo forças suficientes nos seus tons de grisalho para resolver nossos problemas. O seu partido, criado por uma personagem política que surge apenas a cada quatro anos, nasceu sem ideologia e unidade, é uma espécie de spin-off do PV.

No próximo dia 2 de outubro você terá a oportunidade de transformar o seu município e, pelo menos no caso do Rio, isso significa transformar uma cidade viciada, desigual, corrupta e injusta. Eu sei que muito provavelmente você está cansado da política, mas indignação a gente manifesta na urna, através da escolha da melhor proposta. Nós vamos ter, de novo, a chance de repensar o espaço a nossa volta, de repensar o velho jeito de fazer política. Estude, informe-se e prepare-se para eleger alguém diferente, alguém com coragem para mudar. Mudar é necessário e, acredite, é possível. Pense, olhe para o mundo real e escolha com cuidado, até porque não está tudo bem, eleitor.

*Créditos da foto de capa: Fan de la Vida.