Antes de ir embora, não esquece de pegar suas roupas no cesto, pois eu não sou obrigada a ver essas roupas sujas misturadas as suas mentiras depois de você ir. Leva também a chave do carro, já que não iremos mais a lugar nenhum, aliás só eu não tinha percebido que estávamos há muito tempo parados aqui, em meio a sentimentos irreais. Pega também esses quadros que você tanto ama, eles me fazem lembrar de você e da sua incrível habilidade em atuar e me confundir, assim como essas artes baratas na minha parede. Falsas. Elas e você.

Não precisa levar tudo também, deixa a escrivaninha pelo menos, já que eu tenho uma parcela de culpa nessa nossa confusão. Fui eu quem deixou você chegar e trazer sua bagagem pesada e seu charme de quinta, rápido demais, eu sei. Você com um jeitão de ser e falar, meio ogro, mas ao mesmo tempo tão sensível, um tanto safado e ao mesmo tempo escritor de poesias que derrete até os corações de pedra, como o meu. Quem iria imaginar?

Você veio, sorrindo largo. Grande no tamanho e nos sonhos. Mas até onde era real? Tão bom que desconfiei. Só até a página dois. Me deixei levar por suas palavras macias como veludo sem valor algum. Tenho que admitir que você tinha uma ótima imaginação, uma história melhor que a outra, e contadas por você pareciam incríveis até difíceis de acreditar. Mas eu acreditei. Por quê?

Tá vendo essas contas em cima do balcão? Pode levar, são suas. Você vai pagar por tudo que fez algum dia. Imagino que você vai continuar por aí espalhando suas historinhas encantadoras, muitas vão cair nesse papinho, assim como eu. Mas um dia essas dívidas serão cobradas e da vida, meu caro, não tem como fugir. Não que eu me importe com o fim que você levará, não mais.

Terminamos. Suas coisas já estão prontas! Mas antes de ir embora fique sabendo, assim como você existem milhares, assim como eu, nunca mais.