Eai, teoremistas?! Trago hoje para vocês um livro que me intrigou pelo título e foi uma surpresa, pois não era nada daquilo que eu achava, se mostrando maravilhoso. Sabe aquele ditado: não julgue um livro pela capa? Então, esse foi um dos casos.

Alex é um garoto de dez anos muito diferente dos outros. Ele é solitário e vive com a mãe em uma casa caindo aos pedaços do subúrbio de Belfast, Irlanda do Norte. A mãe não é mais a mesma desde que o pai de Alex morreu. O garoto não lembra quase nada do pai e a mãe não contou para ninguém quem ele era e o proibiu de tocar no assunto. Alex é independente para sua idade. Ele mesmo se vira na cozinha preparando cebola com pão, já que se pode comprar muita cebola com pouco dinheiro.

A muito tempo que Alex enxerga demônios. Seu melhor amigo é Ruen, um demônio que aparece para ele em diversos momentos. Quando Alex presencia a quarta tentativa de suicídio de sua mãe a situação muda, com a mãe no hospital e a casa no estado em que estava, Alex é encaminhado para a doutora Anya, médica e psicóloga especializada em doenças psiquiátricas infantis. O assistente social que já acompanhava Alex não quer que o garoto seja internado, mas a vivacidade das descrições de Ruen, das conversas entre eles e de outros demônios, impressiona Anya. Para ela a postura de Alex e esse “amigo” indicam o começo de uma esquizofrenia e Anya não vai descansar enquanto não descobrir a história e a verdade sobre Alex.

Anya perdeu sua filha de doze anos para o suicídio por não enxergar o quão grave era o caso e não quer cometer o mesmo erro com Alex. Mas tem outra coisa preocupando Anya, como Alex poderia saber tanta coisa sobre ela? Seria apenas a percepção infantil aguçada ou algo mais? Estaria Anya, uma médica conceituada considerando a possibilidade de Alex realmente ver demônios?

“Ele disse:- Como é o amor? Eu disse:Você teria de perguntar a uma menina. Então, pensei em mamãe, no quanto eu a amo, e assim eu disse:- É como ser capaz de fazer qualquer coisa pela pessoa que ama.”

O enredo foi muito bem construído, como a ambientação da história, a forma como é narrada as vidas de seus personagens com muita habilidade, fica claro que a autora se preocupou em realizar uma profunda pesquisa na parte da psicologia, assim suas explicações fazem sentido e permite a qualquer leitor tendo conhecimento ou não dessa parte, entender a história e acompanhar as explicações e o trabalho de Anya. Outras questões como a violência e família, também fazem parte do contexto, assim complementando ainda mais a história. O livro me conquistou por diversos motivos. O primeiro é que o título faz alusão ao sobrenatural (Gosto de ler, não ver filmes de terror =p). Segundo, a forma como os personagens são apresentados é fantástica, sombria e doce ao mesmo tempo, e eu poderia me estender listando em números o quanto esse é um ótimo livro. Uma das primeiras dúvidas que o leitor tem é sobre se é real ou imaginação tudo o que Alex passa. Talvez seja uma mistura de tudo e a falta de certas respostas deixe a história  com certo ar de mistério. É um livro envolvente, desafiador, enigmático e ao mesmo tempo gera indagações. Com certeza o sofrimento de Alex devido aos traumas sofridos mais novo, alimentou seus próprios demônios. Mas, ele foi capaz de vencer seus medos… Há infinitas possibilidades da capacidade de um ser humano dar novos sentidos em suas vidas, principalmente quando se trata de sofrimento mental como uma esquizofrenia, por exemplo.

“Ruen explicou-me muita coisa sobre quem ele é e o que faz, mas nunca por que eu consigo vê-lo quando ninguém mais consegue. Acho que somos amigos. A questão é que o que Ruen me pediu para fazer me faz pensar que ele não é absolutamente meu amigo. Ele quer que eu faça algo muito ruim. Ele quer que eu mate uma pessoa.”

Jess-Cook soube como conduzir uma história que apresenta um toque sobrenatural e a tensão em medidas certas, o leve suspense nos prende e no final nos reserva algumas surpresas. Leitura que envolve o leitor, que concentra nossas energias e que vai te atingir de maneiras única, seja pelo seu lado peculiar ou por seu protagonista que desperta tantos sentimentos. A ambientação é outro ponto alto do livro. Carolyn Jess-Cooke me surpreendeu e me cativou com sua história de um suspense diferente, complexo, vivo, pesado e psicológico, mas inocente. Emocionante, cativante e revelador.

Até mais teoremistas!