E ai teoremistas leitores, prontos para mais um dica maravilhosa de leitura? Esse livro eu já li há bastante tempo, mas que é tão bom que precisava falar dele com vocês. Bora lá?!

A história começa com Catherine vivendo uma vida agitada e normal, até conhecer Lee, o tipo de cara que é sonho de toda garota. Cuidadoso, atencioso, fofo, preocupado e super protetor, Lee é perfeito, até demais! Só que  começamos a ver que toda essa perfeição não passa de um rótulo já que a partir de um determinado momento ele começa a demonstrar sua verdadeira face: paranoico, ciumento e controlador. Assim, Lee começa a controlar a vida de Catherine: segue ela pelas ruas, controla seus horários, controla o que ela faz ou deixa de fazer e controla até mesmo as roupas que a moça usa. Anos se passam desse terrível momento que ela viveu, mas vemos Catherine ainda lidando com as consequências desse relacionamento e tentando seguir em frente, mesmo isso parecendo impossível em alguns dias.

Primeiro ponto que você precisa saber: a narrativa não é dividida em capítulos, mas em dias. E atenção às datas – porque ela vai intercalando passado (quando Catherine começou a namorar Lee) e presente (no qual Cathy sofre com o TOC). São bem curtos esses capítulos e prendem o leitor, mesmo que a leitura seja pesada, não pela escrita em si, mas pelo conteúdo da história. A parte que conta o passado é terrível – fala de um relacionamento doentio, possessivo e também da incapacidade de Catherine se desvencilhar daquilo tudo, por mais que esteja se sentindo mal com a situação.

“Novamente, ouvi meu mantra surgir indesejavelmente na minha cabeça:
Isso não é normal. Não é assim que as pessoas normais pensam.
Mas que se dane afinal, o que é ser normal?”

Outro ponto da história é: os personagens são ótimos! Todos são muito bem descritos, não somente em suas aparições no passado, mas também no presente. A escritora não apenas os caracterizou muito bem – com personalidades complexas – como ainda fez com que o passado deles tivesse peso significativo em suas atitudes, o que os tornou ainda mais verdadeiros. O livro me fez refletir muito, não só sobre os relacionamentos abusivos, mas no fato de que no momento que ela mais precisou nenhuma amiga dela conseguiu acreditar nela! É simplesmente assustador saber que isso é algo real, que por vezes quando nos encontramos em uma situação complicada as pessoas fecham os olhos para o seu problema.

Um detalhe interessante é a forma como a autora modifica a forma como sua protagonista é chamada no passado e no presente – uma maneira de mostrar como as duas mulheres é diferente (embora, não entenda mal, sejam a mesma pessoa) e também uma forma de fazer com que o leitor não se perca durante a leitura.

“Certa vez fui convocada para uma reunião com a diretoria que durou várias horas; quando liguei de volta para Lee, esperava que ele estivesse furioso comigo, mas não; como vim a descobrir mais tarde, ele foi até o meu trabalho, viu meu carro no estacionamento, abriu-o com sua cópia da chave (ele agora tem cópias de todas as minhas chaves; não que eu tenha dado, mas mesmo assim ele tem) e conferiu a quilometragem, vendo, assim, que eu não fora a  lugar algum sem lhe avisar. Ele sabe exatamente quantos quilômetros meu carro está marcando e qual distância da minha casa para o meu trabalho e vice-versa. Não posso me desviar do meu itinerário.”

A parte que conta o passado é terrível, fala de um relacionamento doentio, possessivo e também da incapacidade de Catherine se desvencilhar daquilo tudo, por mais que esteja se sentindo mal com a situação. Uma das partes que mais gostei é quando ela comenta que sempre estranhou as mulheres que não largavam os maridos violentos não fizessem nada para mudar essa situação, mas agora ela se via em um relacionamento que já não fazia bem a ela e entendia perfeitamente o problema de tais pessoas, pois também estava de mãos atadas. Acompanhamos suas ilusões, a promessa de um relacionamento maravilhoso com um homem perfeito surgir e se desfazer lentamente. Com muita sutileza, a autora vai arrancando a fantasia do príncipe encantado e mostrando o monstro que se esconde por trás de tanto charme e mistério. É um tema atemporal a violência contra a mulher dentro de um relacionamento, e nesse livro vemos que as marcas que se carregam nem sempre são físicas. Essa é o tipo de leitura que trás questionamentos e talvez até uma luz para quem esteja pagando por esse tipo de situação (saber que mesmo com tudo, sempre pode existir um final ao sofrimento).

“O fato de ainda amá-lo, amar aquela parte gentil e vulnerável dele que estava lá dentro em algum lugar, era somente parte do problema; havia também o medo aterrador de como ele poderia reagir caso eu fizesse algo que acabasse provocando-o. Agora não era mais uma questão de me afastar. Agora era preciso sair correndo. Era preciso fugir.”

A escrita de Elizabeth Haynes é viciante. A autora não só escreve muito bem – tem uma leveza na escrita que compensa a densidade da história que conta – como também soube escolher perfeitamente o enredo e contá-lo de forma magnífica. O livro é um excelente triller psicológico, apresenta tensão, suspense e altas doses de perturbação na medida certa. Mas se você é uma pessoa que se impressiona fácil e fica incomodado com situações de tensão e violência, esse com certeza não é um livro para você.