Salve, salve, teoremísticos, tudo bom com vocês? O colunista mais desentendido de música dos últimos tempos andou afastado nessas semanas, mas fiquei sabendo que o ritmo continua a todo vapor, correto? Correto.

Nas duas últimas colunas Filipinho mandou super bem com a divulgação das 20 bandas selecionadas pra edição do WebFestValda desse ano, cês viram? Pois cliquem aqui and aqui. Nem é que eu queira me gabar, mas mesmo sem a audição total do ouvido direito, papai emplacou nas suas apostas nada menos do que quatro escolhidas. Enquanto você vai lá dar uma conferida nas matérias, vou inserir essa foto aparentemente desconexa da reluzente rainha baiana do rock.

Além de Pitty, Maneva, Onze:20 e Monobloco se apresentam na edição desse ano. Créditos da foto: Caio Rodrigues

E é nesse embalo de WFV que nós da Independentes resolvemos buscar bandas que participaram de carnavais passados para contar um pedacinho da experiência. Encabeçando essa maravilhosa lista de duas, hoje é dia de Djambê, campeã da edição 2015.

Logo de início você precisa entender que a Djambê define o seu estilo como “rock macumba”, algo que a princípio gera tantas dúvidas quanto o nome da banda (que por sinal vem do djembe, tambor africano com batida marcante). Segundo o vocalista Emílio Dragão, o “rock macumba”  nasceu da dificuldade em definir o que o grupo cantava.

“Quando perguntavam, acabávamos falando: ‘É tipo Nação…’, aí inventamos essa gaveta pra caber nosso som. Com a mudança dos integrantes cada um trouxe um tipo de referência e o rock veio forte. Achamos que rock macumba contemplaria essa mistura do power trio do rock, das levadas afro brasileiras e também traria um pouco de reflexão”.

Essas tais “referências” passam pela mistura musical que formou e reformou a Djambê, com integrantes que vieram do pagode, rap, funk, MPB, reggae, forró e samba de roda. Além de “ser tipo Nação… [Zumbi!]”, eles encontraram influências em O Rappa, artistas de rua, e outros independentes, como as extintas  Cordel do Fogo Encantado e Rosa Crioula. Dragão ainda conta que a “macumba” etiquetou de vez a tal gaveta musical quando, em uma festa, alguém pediu que a banda parasse de tocar “essas macumbas aí”, sob a justificativa daquele ambiente ser uma “casa de cristão”.

Como aqui não tem nenhum cristão, vamos abrir os trabalhos com algo que também vem do céu. Com vocês, “Trovão“.

E não adianta nem tentar me rotular, pois eu sou o líquido e não sou a garrafa

Nascida em uma roda de capoeira, Dragão formou a banda com dois amigos que jogavam com ele em 2003, a Djambê é mais uma das talentosas independentes mineiras e, além do vocalista que nos fala, conta com Alex Bartelega (bateria), Biel Sant’Anna (teclado), Júnior Caban (guitarra e baixo), Maýra Motta (percussão) e Priscilla Glenda (voz e sampler).

Essa turma aporta por aqui hoje, mas bem poderia ter surgido em uma das duas “Quando a música sobe um degrau”, matérias que escrevi sobre bandas que produzem um som que vai além da própria música. Eles têm uma mensagem poderosa que começa na defesa das minorias e termina nos “animais não humanos”. Os caras falaram tão bem na entrevista que seria um sacrilégio da minha parte não reproduzir na íntegra. Por isso essa matéria pode até ficar meio grande, mas as linhas vão valer cada segundo que você ia gastar rolando a timeline do Facebook.

Um bom exemplo dessa “preocupação” em passar uma mensagem pode ser vista em “Quanto Vale?”, música e clipe fodásticos que criticam o absurdo promovido por Samarco-BHP-Vale em Mariana. O ato de terrorismo contra o Rio Doce e a região, que por sinal ainda não foi punido, promoveu uma canção que “é um retrato dessa relação promíscua entre Estado e mega empresas, onde a grana vale mais do que as pessoas”.

“A música tem o poder de tornar um tema amargo mais palatável. Tem assuntos que pra serem debatidos de uma forma saudável levariam horas, mas musicado, com 3 minutos de ideia, a recepção fica muito mais leve e ilustrativa. Não que o conteúdo seja diluído, porque não é. O papo é reto. Mas o que vem em volta tempera.”

Mas aquela minha curiosidade em entender por que existem artistas que “teimam” em tomar o caminho mais difícil e levantar alguma bandeira persistia. Provocados nesse sentido, eles deram uma resposta maravilhosa:

“Se não for pra fazer diferença positiva na vida de quem foi ouvir a gente, preferimos nem sair de casa. Entendemos que, em todos os casos, o tamanho da nossa responsabilidade é do tamanho dos nossos privilégios, então se temos o privilégio de cantar num microfone, com caixa amplificada, pra um monte de ouvido, temos a responsabilidade de dizer algo relevante. E nossas músicas são exatamente nossos questionamentos, aprendizados, visão de mundo. A missão é inspirar a mudança de uma forma positiva, entendendo que é de dentro pra fora, que temos que reclamar sim sobre o chicote estralando nas nossas costas, mas ao mesmo tempo temos que dar atenção ao chicote que tá na nossa mão estralando nas costas de negros, mulheres, LGBTQ’s e também nas dos animais não humanos (#govegan!).

A gente entende que todas as lutas são uma só: a luta contra a opressão! E há opressão onde existe um dominante (grupo ou indivíduo) que, arbitrariamente, escolhe que os interesses do dominado são menos importantes que os dele (e isso é culturalmente aprendido). Acho que a nossa bandeira é a da justiça e da coerência, mas no nível micro, da relação interpessoal. O outro tem interesse em não ser subjugado, em não sentir dor, em não ser explorado, em ter o direito de não ser tratado como um objeto. A mudança da sociedade começa na mudança de atitude dos indivíduos que compõem ela, no caso eu e você”.

Essa “música que faz pensar” parece ser a cola que une a banda. Questionadores, Dragão diz que esse tipo de letra sai naturalmente e “a boca fala do que o peito tá cheio”.

“Música é tipo comida pra mim, saca? Tem comida com valor nutricional e sem valor nutricional. Comer um junk food de vez em quando é muito gostoso, mas faz todas as refeições do dia nele e me conta como vai estar sua saúde daqui a um mês. Tudo que é demais sobra. A gente escolheu fazer ‘comida nutritiva’, que além de saborosa, nutre o ouvido e a mente!”

Em #Eunãomereço, o assédio e a afirmação feminina ganham vez através da interpretação deliciosa de Priscilla Glenda.

Em 2015, como participante e campeã, e 2016, como convidada, a Djambê conseguiu alcançar mais alguns dos “15 bilhões de ouvidos humanos” através do maior festival de bandas independentes do país.

“O WebFestValda foi importante pra gente ter contato com um tipo de organização de evento que, até a nossa participação lá, eu pelo menos nunca tinha visto pelos bastidores. O profissionalismo e o cuidado que toda a equipe teve com a gente, desde a recepção no aeroporto até os técnicos e roadies na hora da passagem de som e apresentação foi impressionante! Eu acho que isso tudo nos inspirou a dedicar mais à banda, levar mais a sério o trabalho. Esses 2 anos, foram os anos que a gente mais circulou na história do Djambê, foram 8 estados, 30 cidades, mais de 100 shows, 50 mil km rodados e 5 mil discos vendidos. E foi muito legal ver também a isenção da galera da organização. Todo festival o pessoal fala que tem esse lance de ‘carta marcada’, ‘marmelada’, ‘costa quente’, mas a gente foi sem conhecer ninguém da equipe, jurado, nada (nem o papagaio do primo da namorada do estagiário) e ganhamos melhor banda e vocalista revelação”.

Além dessa organização, enquanto eu debutava no festival do ano passado, o que mais ouvia era sobre o contato que as independentes faziam umas com as outras, as amizades que surgiam, as novas possibilidades de projetos.

“Achamos essa integração a coisa mais linda do WebFestValda! O lance de ficar todo mundo junto no mesmo hotel e o cuidado no tratamento com a gente, propicia esses encontros, essas trocas e acaba com o sentimento de competição, saca? Vira uma grande celebração da música com uma banda torcendo pra outra (sem demagogia). Em 2015, depois que nos apresentamos na eliminatória, um monte de banda foda veio falar com a gente, ‘Vocês vão ganhar essa parada!’, e sem recalque, era sincero mesmo. Ficamos muito amigos do pessoal da Paranambuco! O pessoal da Cabugá foi prestigiar nosso show quando tivemos em Recife, e a galera da Todos Os Santos, principalmente o Rincon (Carlos), todas as vezes que fomos em Salvador nos encontramos, inclusive eu participo de uma faixa do novo disco solo dele “Sobre a Terra” que vai ser lançado em breve.
Em 2016, mesmo como banda convidada, a gente também teve a oportunidade de ficar no hotel. Ficamos amigos do Luthuli  da banda Sinara e ficamos irmãos da galera do Levante! Depois disso, já dividimos o palco duas vezes com eles, fizemos o show de abertura no lançamento do EP “Incendiário” e nas duas vezes que fomos pra Salvador ficamos na casa da galera, além deles terem nos ajudado muito na logística e nos contatos em SSA. A gente se fala quase que diariamente num grupo de Whatsapp também. Viramos família mesmo!”.

Antes de finalizar, a gente ainda conseguiu bater um papo sobre o cenário independente. Existe alguma parte boa em não ter amarras ou seria tudo só dificuldade?

“Cara, qualquer segmento/profissão que você seguir vai ter dificuldades, você vai ter que ralar. E na música também é assim. Não tem caminho traçado, não tem ninguém falando ‘faça isso, faça aquilo’ e no fim do dia você vai e bate seu ponto. É entrar com o facão pro meio do mato e fazer a trilha. A gente mesmo teve que aprender/desenvolver diversas habilidades pra subir uns degraus. O Juninho saca mais de som, já trampou de roadie, então ele cuida mais dessa parte técnica de inputs, equipamentos, etc. A Pri estudou publicidade, então ela é responsável por toda nossa comunicação. Eu tive que aprender a editar vídeos pra fazer os nossos clipes e lives, tudo na base de tutorial de Youtube (o clipe de ‘Quanto Vale?’ é um produto disso, por exemplo). Sem contar os amigos que sempre dão moral e fazem uma filmagem ali, gravam um áudio aqui, divulgam acolá… e a gente também tá sempre dando moral! Na verdade esse termo independente é meio estranho, pois somos​ extremamente dependentes de um monte de gente e fatores”.

Fueda, não? Se você curtiu a entrevista da Djambê, segue abaixo o nosso mais do que tradicional serviço completo (quando clicar nas palavras, um link maravilhoso vai te levar a algum lugar):

Redes sociais: Facebook, Twitter e Instagram.

Site: http://www.djambe.com.br/

YouTube: youtube.com/bandadjambe

Próximos shows: enquanto prepara um novo álbum e finaliza o clipe de “Trovão” (que chega já no mês que vem), a Djambê vai dar uma diminuída na frequência de shows, mas pra se atualizar fique por dentro da fanpage!

PS: pra expandir seus horizontes também coloquei um link em cada banda citada nessa matéria. Se quiser conhecer mais, basta clicar.