O voo de Ribeirão Preto pro Rio leva cerca de 1 hora e 40 minutos. A sua passagem e a do resto da banda está paga. Tudo incluso mesmo, o avião, a barrinha, o amendoim, o translado do aeroporto pro hotel. Fica tranquilo. É véspera do início, mas super dá tempo, como eu disse, a viagem vai levar apenas 100 minutos. Quer dizer, isso se você e os outros cinco integrantes não perderem o check-in. Isso se o relógio não marcar cinco horas da manhã (aí a véspera vira mais véspera ainda). E isso só, e somente só, como diriam os Novos Baianos, se a sua única opção para marcar presença no maior festival de bandas independentes do país não for um espetacular ônibus de rodoviária que te deixa no mesmo Rio em 11 horas de viagem.

O humor da Chavala Talhada começa pelo nome, passa pelo perrengue antes da participação na edição 2016 do WebFestValda e só termina nas músicas da banda. Presentes em inúmeros festivais, os ribeirão-pretanos, são a segunda banda a participar do nosso esquenta pra edição desse ano do WFV (semana passada foi dia da Djambê, cê viu, cê viu??).

Não, não é nada disso que você está pensando. Por mais que a gente imagine uma infinidade de malícias para “Chavala Talhada” (a minha cabeça só conseguiu pensar em uma, mas confio na mente poluída de vocês), a explicação é outra. Os pais fundadores da banda possuíam dois amigos portugueses, e na hora de escolher o nome acharam simpática a expressão lusitana “Chavala”, que para os nossos colonizadores significaria algo como “garota”. Mas não bastava ser “garota”, também seria bacana ser “bonita”. Daí a delícia de nome ser Garota Bonita (ou Chavala Talhada no idioma quase estranho chamado português de Portugal). Se lá nos idos 1999 eles tocavam algo que se entendia como samba-rock, hoje os caras não curtem definir um estilo. Sabendo disso, o Teoremas resolveu ir pelo outro lado. O que diabos então a Chavala NÃO toca?

“Poutz. A Chavala toca tudo! Não há nenhum preconceito quanto a estilos. Por um período abraçamos a ideia do samba-rock, mas não conseguimos nos prender ao termo. Podemos dizer que a Chavala evita tocar as músicas que chamamos de ‘carne de vaca’, aquelas que tocaram milhares de vezes nas rádios, ou aquelas que realmente não combinam com a personalidade da banda, com conteúdo divergente aos nossos conceitos”.

Estilo: todos, menos os ruins.

Influenciada principalmente pelo gingado da música brasileira (a melhor do mundo, se você não concorda volte cinco casas), a banda encontra referências em Jorge Ben Jor, Wilson Simonal, Tim Maia, Titãs e Raimundos. Além disso, quando…

Espera.

(X) Explicação sobre o nome da banda;

(X) Ano de formação;

(X) Influências;

(  ) Integrantes.

Veja, o roteiro que toda matéria clichê sobre bandas segue (principalmente as minhas) está quase completo. Ainda bem que eu não tenho ritmo nem pra bater palma. Imagina responder em toda entrevista as mesmas perguntas?

O bom humor foi o pré-requisito que uniu a formação atual: Adriano Martins na batera, Jader Marcolino no trombone, José Sales e Walter Oliveira comandando os vocais e as guitarras, Mário Amorim no trompete e Thadeu Schmidt no baixo/vocal. A irreverência pode ser vista no tocante relato sobre a moça que buscava algo que saltasse aos olhos.

Além da levada fodástica, preste atenção na letra que faz dessa a minha música favorita.

“Partimos da ideia do ‘celebrar sem ser lembrado’, transmitindo emoções positivas através da música e dos shows. São praticamente 18 anos do nome Chavala e do início pra cá mudamos alguns conceitos, a dialética, experimentamos bastante. Acredito que a missão de fato seja tocar, tocar em todos os lugares, para todas as pessoas possíveis, e que possamos levar boas energias onde estivermos”.

Nessa quase maioridade independente, além de dividir palco com os ídolos da Nação Zumbi, Mundo Livre S/A e Funk Como Le Gusta, a Chavala também experimentou o outro lado. Mesmo que o sexteto tenha que tocar outros projetos pra sobreviver (entre eles a Sex Shop do baixista no centro de Ribeirão Preto), a banda avalia que vale a pena se manter livre.

“Tivemos um vínculo com o MGB Studio que durou de 2012 até o final de 2014. Com eles produzimos o disco ‘Chavala Talhada’, lançado em 2013. Foi uma grande experiência e o resultado, para nós, foi muito satisfatório. Nesse período tivemos o disco lançado digitalmente pela Sony Music. A parte mais complicada é não poder restringir as ações ou estratégias à banda. Existe um ou mais produtores que vão colocar as próprias ideias no trabalho. No nosso caso, começamos gravando 14 músicas próprias e no final das contas acabamos cedendo à estratégia de regravarmos grandes artistas, o que resultou num disco com 13 músicas, 7 próprias e 6 regravações. Voltar à independência nos permitiu traçar os próprios caminhos, investir coletivamente, nos trouxe o compromisso de todos os integrantes em assumir suas responsabilidades artísticas. Acho que o melhor é poder tomar suas próprias decisões”.

Eles que já participaram duas vezes do WebFestValda, beliscaram o segundo lugar em 2014, e o prêmio Rádio Cidade no ano passado, agora guardam torcida para os conterrâneos da Sambotagem Racional (“uma galera que groova demais”) e planejam uma parceria com a Hey Joe (banda que faz a abertura do segundo dia).

“Sem dúvida nenhuma é o maior festival de bandas independentes do mundo, sem exagero. E quando falo de bandas independentes, falo das desconhecidas, as desamparadas, as longínquas! A maneira como a produção lida com os artistas é sensacional. Beira à bajulação. Tivemos o mesmo frio na barriga, o mesmo gelo na espinha, nas duas vezes que anunciaram nosso nome entre as 20 classificadas. Sabíamos que o maior prêmio já estava dado, participar dessa experiência única”.

Pra ter ainda mais contato com a tchurma Talhada, segue o servicinho completo:

Redes sociais: Facebook, Twitter, Instagram e YouTube

Site: www.chavala.com.br

Próximos shows: 15 de julho – Milwaukee American Bar – Ribeirão Preto/São Paulo.