Salve, salve, teoremistas! Bem, pegando essa saudação do Salve Oliveira, eu inicio dizendo que foi reservado a este colunista falar sobre o que você, caro leitor, não viu nas duas noites do WebFestValda. Olha, eu já te adianto que existem muitas histórias interessantes que vão além das câmeras que transmitiram o festival na web. Ok, ok, as lentes dessas câmeras mostraram as 20 apresentações das bandas independentes participantes na Fundição Progresso, mas a conexão musical que há nesse festival não se resume somente ao que acontece nesse importante palco carioca, vai muito além.

As bandas começaram a se encontrar no aeroporto ainda na quinta (6), em seguida, em um hotel na Lapa, onde muitos acordes foram compartilhados. Quando nós do Teoremas chegamos ao local, os rapazes da Periferia A Massa estavam fazendo um som cheio de suingue, que ninguém podia ficar parado, não é atoa que Valente e Di, ambos da Levante!, e os brasilienses da Saci Weré estavam curtindo o som e o “modesto” sol no terraço. O sol de uma tarde de inverno que não fazia jus a fama de Rio 40° graus, o que era de se estranhar para Luana Alves, da banda Seu Ninguém, acostumada as altas temperaturas do Rio Grande do Norte. Esse dia foi marcado por conhecer pessoalmente aqueles amigos virtuais e ouvir as primeiras histórias.

Matilda, Saci Weré e Mestre Madruguinha.

Uma das primeiras pessoas com quem conversei foi o Dani Oliveira, baixista da Saci Weré, ele me contou sobre a sua formação em jornalismo e sua breve atuação na área (poderíamos ser colegas de profissão hoje). No entanto, a música falou mais alto. Além de suas escolhas pessoais, ele explicou a formação da identidade da banda, chamada incialmente de Novos Calangos, que vem sendo construída nos últimos quatro ou cinco anos, consolidando-se com o nome Saci Weré e a entrada de novos integrantes. No dia seguinte (7), eles foram a terceira banda a se apresentar após GrooVI e Vibehouse. O vocalista Christofer Barea também conversou com a gente sobre a formação da banda e a experiência desses dias no Rio.

“A gente sempre reverencia a nossa origem e sempre que a gente está conversando sobre o conceito da banda, eu tento trazer nossa historia. Cara, vamos nos lembrar dos sonhos de quando nós formamos a Novos Calangos, essa história de trazer uma nova música brasiliense, misturar elementos.”

“A energia do Festival está muito boa. A sensação lá em cima [do palco] foi de honra, eu tenho grandes ídolos que tocaram na Fundição… Então, uma adrenalina. E é muito massa porque você está cantando e vendo a galera das bandas que está com você lá no hotel e todo mundo curtindo junto. Essa articulação entre os artistas é o ponto mais interessante do festival. O FestValda tem uma filosofia legal de conectar coisas muito diversas porque o Brasil precisa articular sua classe artística.”

A fala de Christofer só corrobora o que a gente viu e sentiu. No WebFestValda há “tribos musicais” de diferentes regiões do país e estilos, servindo para mostrar a qualidade musical que há em nosso país e que ser independente não significa ser pequeno ou ruim. No palco do festival, tocaram artistas com mais de 10 anos de carreira enquanto outros estão começando agora.

Caio Correa, por exemplo, possui 15 anos de estrada, sendo grande parte ao lado de Diego Miranda e Dedé Teicher, seus companheiros de Scracho. Agora, ele desenvolve um novo projeto junto aos rapazes que formam O Baque. Eles estão divulgando o álbum “Muiraquitã”, um disco maduro e de linguagem sensível ao contexto que vivemos hoje em dia. Caio Correa e o Baque se apresentou no dia 8, a segunda banda da noite após a Etcétera, com a música “O Caldo”.

Se Caio já tem um percurso considerável na música, a Seu Ninguém se encontra do outro lado dessa história. Eles estão atuando há apenas dois anos e buscando espaço no cenário do rock nacional. Eles já vêm se destacando no Rio Grande do Norte e o WebFestValda foi a primeira grande vitrine para despontar nacionalmente quem sabe (e eu aposto que sim). Na apresentação, eles fizeram um cover da música “Ilegal, imoral ou engorda”, além da autoral “Termidor” do EP “Arrojo”, levantando a galera, principalmente os fãs da Pitty, cantora responsável por fechar a primeira noite (7) do festival.

Ah, e sabe o que o Caio e a Seu Ninguém têm em comum? Os dois foram destaque aqui na coluna “Indepdentes, Graças a Deus” há duas semanas junto com a Mari Blue (clique aqui). Ela e sua banda surpreenderam a todos, inclusive, os jurados e levaram três prêmios para casa (viu só que poder?!). Não é atoa que Jéssica Jansen, a criadora desse blog disse “mas também, que voz ela tem”. Mari recebeu o prêmio de Melhor Cantora, Mario Wamser recebeu de Melhor Guitarrista e a banda, no geral, ficou na segunda posição. Antes da sua apresentação, ensanduichada pelas mulheres empoderadas da Mulamba e Matilda na segunda noite (8), ela conversou comigo e revelou um desejo.

“Eu tenho vontade de fazer um disco todo folk, de gravar no meio da natureza e fazer músicas talvez junto com o Mário [Wamser] e o Federico [Puppi], além de composições minhas. Enfim, colocar as nossas músicas em uma praia bem intimista ao se retirar para a natureza porque o meu som atual é bem urbano, mas eu sou muito da natureza também. Folk é uma das coisas que eu mais ouço apesar de não estar na minha música, mas quem sabe daqui a um tempo porque agora eu vou lançar vários vídeos do meu trabalho novo “Fruto da Flor”, então, ainda tem um tempo de divulgação desse disco”.

Após receber os prêmios, Mari Blue disse que estava muito contente com o ano de 2017, pois não é o primeiro festival que ela e sua banda vencem. Estão colecionando troféus. “Eu mando [os troféus] para casa da minha vó no interior de Minas [Gerais]. Ela guarda tudo e adora mostrar para os vizinhos”. E você pode comemorar com Mari Blue e banda no show no dia 11 de agosto no Teatro Ipanema no Rio. (Para conferir os outros prêmios, clique aqui e veja a ótima matéria feita pelo Salve Oliveira na semana passada).

Outra moça que também arrasou nos vocais de sua banda foi a Carol Lima, da Fuzzcas, uma pequena mulher (de estatura somente) com grande carisma e voz no peito. Eu conversei um pouquinho com ela na concentração antes de subir ao palco sobre a música “Eu vou me defender”, a escolhida para concorrer no festival.

“Essa música é uma composição minha com Pedro Dias, da banda Top Vox como a maioria das musicas do Fuzzcas. ‘Eu vou me defender’ é como se fosse uma expressão de insatisfação com aquilo que você se vê moldado a fazer as vezes para agradar as outras pessoas e a sociedade. (…) Assim, você acaba se tornando uma pessoa covarde, que não luta pelos seus ideias, não mete a cara e não faz exatamente o que você sonha. Também é uma coisa de expressão artística porque é muito difícil ser artista no Brasil”.

Carol ainda comentou sobre a recepção positiva do único álbum da banda, o disco “Feliz Dia de Hoje”, lançado em 2014, tendo críticas positivas de jornais como O Globo, O Dia, sites especializados, além de recepção calorosa do público também.

Além da Seu Ninguém e da Fuzzcas, a primeira noite do festival ainda reservava mais rock’n roll com as apresentações da Madame B, com a voz potente de Bárbara B, e os rapazes do Machete Bomb. Esses paranaenses usam até cavaquinho com distorção. Eles encerraram a noite das independentes com muita pressão, passando o palco para a baiana Pitty.

Madame B.

O line-up do festival foi muito bem pensado e estruturado. Se o rock se destacou na sexta, o reggae se impôs no sábado, pelo menos, no inicio da noite, pois se apresentaram a mineira Hey Joe, banda revelação em 2016, em seguida, Onze:20 e a primeira concorrente, a Etcetera. Todas elas possuem fortes influencias do reggae.

Vale ressaltar os olhares atentos da galera da Levante! durante a apresentação da Hey Joe, banda convidada para fazer o esquenta dessa segunda noite. Em 2016, tanto a Hey Joe quanto a Levante! estavam participando do festival como “bandas concorrentes”. Mas por que as aspas? Pode parecer clichê, mas a busca pelos troféus e prêmios não é o que guia esses artistas. A vontade de estar em um palco consagrando e dividir suas músicas autorais com os outros artistas é bem maior. Eles falam isso e não é da boca para fora, pois é comum ver atitudes como a do Thiago Maia, vocalista da Jerry Matarazzo, gravando os demais participantes para divulgar depois.

Sambotagem Racional foi uma das bandas que também se apresentaram no sábado.

Agora, vamos retomar um pouco ao primeiro dia de convívio, pois tivemos novidades nessa edição de 2017 do WebFestValda. Na quinta-feira, os músicos receberam palestras para se profissionalizarem ainda mais. Representantes da editora de música Warner Chappell, da plataforma de streaming Deezer, da distribuidora digital ONErpm e da importadora de instrumentos HABRO Music conversaram com esses artistas sobre o cenário independente e técnicas de marketing para alçar novos voos.

“Nós queremos promover a música de fato, sem músicos tocando por aí não tem mercado e não tem negócio. Então, uma coisa puxa a outra e nós só vamos conseguir mudar de fato alguma coisa nesse país se a gente investir genuinamente em cultura. Para gente, é um prazer estar aqui e participar de um projeto tão primoroso como esse. (…) A gente realizou um bate-papo com os músicos, trocando ideias e dando alguns insights para que eles possam ter um pouco do panorama do backstage da música”. Renata Gomes – Gerente de Marketing da HABRO Music.

Outra novidade dessa edição foi a apresentação de artistas de outras artes na Fundição durante os shows. O público pode ver peças teatrais e apresentações circenses como a da Adelly, que trabalha com circo há 15 anos e é residente da Fundição junto a outros diversos movimentos artísticos.

Com o encerramento do festival no sábado, os músicos voltaram para as suas respectivas casas no domingo, mas a conexão entre eles não acabou. Ainda no sábado, eu vi Mari e Jeca, vocalista da Mestre Madruguinha, trocando contatos no backstage. Além disso, as bandas trocaram CDs e criaram um elo pelas redes sociais. Se você fizer uma rápida busca na internet, você vê que elas trocam likes (e não é o álbum do Tiago Iorc) e compartilham os posts dos outros. Isso é muito importante porque fortalece o cenário independente e conecta as diversas tribos musicais que tornam a música brasileira tão plural e diversa.

E nós também ganhamos CDs, olha que maravilha! Na imagem abaixo, você pode ver os álbuns da Trinato, Saci Weré, Jerry Matarazzo, (o quase filósofo) Marcelo Brum e Hey Joe. Além desses, também recebemos o “Feliz Dia de Hoje” da Fuzzcas, “Vermelho” da Kapitu, responsável pelo esquenta de sexta, “Céu Grande” da Etcétera, e “Arrojo” da Seu Ninguém.

Antes de encerrar, não podemos deixar de agradecer aos fãs das bandas que estiveram presentes na Fundição e conversaram em algum momento com a nossa equipe e aos leitores que nos acompanharam por aqui e pelas redes sociais. À produção do festival, o nosso muito obrigado pela liberdade. Às bandas, obrigado por nos receber sempre que pedíamos uma entrevista, uma foto, vocês fizeram o palco tremer e a energia transbordar. Por fim, parabéns a todos os vencedores (Periferia A Massa, Mari Blue, Trinato e Etcétera).

* Todas as fotos são da talentosa Jéssica Riquena (@riquenajessica no Instagram).