– E como é que ela está?

– Ótima.

– Ótima???

– Quer dizer, bem, sentindo o fim de um relacionamento edificante, mas bem.

– Ela perguntou por mim?

– Caio…

– Ok, já sei, você não pode contar. Mas se ela perguntar fala que eu estou maravilhoso.

– Tudo bem.

– A gente não vai voltar, Raul.

– Hum…

– Dessa vez é sério. Acabou. Quero conhecer novas pessoas, pegar muita gente. Vamos pra balada sábado?

Existe algo de curioso em ser amigo de casal. Existe algo de mais curioso ainda em ser amigo de ex-casal.

– Alô.

– Oi, Raul!

– Ei, Mônica, tudo bem?

– Escuta, vamos sair sábado?

– Sábado não posso.

– Encontro?

– Não exatamente.

– Ah, tá. Tem falado com o Caio?

– Estive com ele até agora há pouco.

– E como é que ele está?

– Maravilhoso.

– Maravilhoso???

– Quer dizer, bem, sentindo o fim de um relacionamento edificante, mas bem.

– Ele perguntou por mim?

– Mônica…

– Ok, você não pode contar. Mas você disse que eu estava ótima?

– Disse que estava bem.

– Era pra dizer “ótima”, Raul.

– Eu enfatizei tanto o “bem” que soou “ótimo”, Mônica.

– Ah, sim. E por que mesmo a gente não pode sair sábado?

Quando o casal termina o amigo do ex-casal precisa escolher muito bem os seus próximos passos. Diferente dos filhos, a legislação brasileira ainda não prevê a guarda compartilhada dos demais membros da família. É por isso que o natural é que os amigos que ela tinha antes da relação continuem com ela e os que ele tinha continuem com ele. Juntos eles só construíram amizades com outros casais, agora, estando solteiros, elas podem ser desfeitas. Ninguém em sã consciência quer ser amigo de casal:

– Amigo, tá aí?

– Oi, Mô, o que foi?

– Pode mandar áudio?

– Só se você estiver do lado da Beyoncé.

– Então deixa.

– Fala.

– Tava conversando com o Caio agora. Ele vem aqui na sexta pegar as coisas.

– Hum…

– A gente combinou de conversar.

– Hum…

– Não vai rolar nada, Raul.

– Hum…

É lógico que o amigo do ex-casal pode escolher ficar com os dois, mas isso é bem mais complicado. Primeiro que exige todo um malabarismo para evitar ciúmes de um dos lados. Segundo que, fazendo isso, ele descumpre o princípio básico de uma amizade pós-término: falar mal do ex.

– A gente transou, Raul.

– Quê?

– A GENTE TRANSOU.

– Vamos lá pra fora, Caio.

– […]

– Vai, agora fala. Acho que o DJ nunca imagina que pode chegar um momento da balada em que a gente queira discutir as merdas que fez no fim de um relacionamento, aí coloca o volume nessa altura. Uma falta de sensibilidade.

– Ontem quando eu fui lá a gente transou, Raul.

– Hum…

– Duas vezes.

– Hum…

– Começamos conversando, mas a gente tem muita atração física, sabe?

– Hum…

– Aí quando terminou a gente conversou mais um pouco e chorou abraçado. Isso foi…

– Deprimente.

– … intenso.

– Intenso.

Justamente por ter ficado com os dois, o amigo do ex-casal não goza de tanta credibilidade quanto merecia

– Mas não é pra contar as coisas que a gente conversa pra ele, Raul.

– Eu nunca conto, Mônica.

– Nunca? Vocês andam tão amiguinhos agora. Duvido!

– Nunca. Inclusive estou me acostumando a ouvir a mesma história duas vezes fazendo cara de surpresa.

– Não sei como você aguenta a gente, Raul.

– Eu bebo muito.

– Sempre tá disposto a ouvir, sempre tem um comentário pra ajudar.

– Hum…

– Tô saindo com um cara novo.

– Odeio ele.

– Você nem conhece. É uma ótima pessoa.

– Não vamos banalizar as ótimas pessoas, Mô. Madre Teresa era uma ótima pessoa, se você sai distribuindo títulos de “ótima pessoa” por aí, o que sobra pra Madre Teresa? Uma “superpessoa”? Não faz sentido.

Não é só o casal que precisa superar o fim do relacionamento. Às vezes para o amigo é até mais duro.

– Tá meio calado hoje hein, Raul. Pensando em quê?

– No quanto é triste ser coadjuvante da própria vida.

– Tô falando sério, cara.

– De certa forma eu também. Tem falado com a Mônica?

– Ela não te contou? A gente combinou de cortar relações, parar de se seguir nas redes sociais, etc. Vai ser bom pros dois.

– Hum…

– Eu não sei como você aguenta a gente, Raul.

– Eu misturo muito remédio.

– Olha essa menina que eu conheci no Tinder.

– Parece ser meio babaca.

– Você ainda nem viu. Ela estuda ciências sociais na USP, mora no Jabaquara e trabalha ali perto do…

– Muito imatura pra você, Caião.

– Tu nem sabe a idade.

– Tem na capa do Facebook uma foto do Che Guevara abraçado no Fidel. Ninguém com mais de 30 é tão socialista a ponto de ainda acreditar nisso. Só é bonito ser socialista até os 30.

É possível até que uma das partes surte um pouco.

– Senta aí, Raul.

– Vocês dois juntos… Notícia boa?

– A gente não voltou, cara.

– Eu e o Caio decidimos te chamar aqui porque achamos que as coisas saíram um pouco de controle.

– Concordo. Vocês já passaram tempo demais separados. Terminar? Tudo bem, todo mundo já estava acostumado. Agora, terminar de vez é meio exagerado, né?

– Na verdade é você que está fora de controle, Raul.

– Não entendi…

– Na festa de sábado você humilhou o Cláudio.

– Nem sei quem é esse.

– É meu namorado, Raul.

– Você não pode estar namorando, Mônica. Acabou de sair de um relacionamento.

– Tem seis meses que a gente terminou.

– Caralho, Caio, se não vai ajudar cala a boquinha, vai. Olha só, Mônica, eu não humilhei o Cláudio. Só disse que com um nome desses ele não vai ter muito sucesso.

– Raul…

– Puta nome inexpressivo. Quantos grandes “Cláudios” a história conheceu? Nenhum. É um nome chato, sem sal, um porre. Eu não tenho culpa se um pai fadou o filho ao fracasso pro resto da vida. Inclusive tem uns nomes que são assim. “Márcia”, por exemplo é outro que…

– Raul, você tá deixando a gente meio preocupado, cara. Como no dia em que eu fui na tua casa e vi o meu nome e o da Mônica naquela lista da parede.

– Hum…

– Que lista? O que eu meu nome tá fazendo numa lista, Raul???

– Hum…

– O Raul tem uma lista com os casais que ele quer que volte. Todo dia antes de sair de casa ele faz uma oração.

– Hum…

– Isso é sério, Raul?

– Caio, se você usasse essa porra dessa língua pra fazer oral, talvez as mulheres não te abandonassem tanto. Mônica, olha só, intervenção só tem graça em filme americano, abaixo do Equador ninguém nem sabe o que é isso. Acender uma vela pra que a Jout Jout reate com o namorado, que o William volte pra Fátima e que a Babalu fique com o Marcelo Novaes é um pouco demais? Talvez. Mas saiba que vocês nem estão no primeiro lugar.

– Raul, a gente não vai voltar.

– [silêncio]

– Raul, você tá chorando?

– Nem é por isso. Eu acumulo muita frustração.  No fundo vocês me deprimem.

– Nossa, Raul, pesado isso, hein?

– Vocês são meus dois únicos amigos, as duas melhores pessoas que eu conheço, saber que não vão ficar juntos é desesperador…

– Muito altruísta isso, cara.

– Na verdade é egoísmo puro e simples. Sendo vocês boas pessoas que não vão ficar juntas, o que sobra pras pessoas que não são tão boas assim? Se vocês estão destinados a um futuro de tristeza profunda, pra mim que sou mediano a vida vai ser pior ainda.

– Toma um lenço, Raul.

– Às vezes eu só queria que vocês fossem uma história minha.

– Pra escrever final feliz?

– Não. Pra terminar quando cansasse.