– Isadora?

Da primeira vez fingi que não ouvi. Botei o cabelo um pouco mais pra frente e, numa dissimulação incrível, joguei a chave no chão pra poder ficar abaixada.

– Isadora!

As pessoas morrem de mal súbito, eu li sobre isso. Seria muito exagero fingir um AVC no meio da recepção?

– Bernardo! Quanto tempo.

Não tinha tanto tempo. Com certeza menos de dois anos, e mesmo assim parecia que ele tinha passado por um desses programas que demolem a casa da gente e constroem outra do zero. Estava bronzeado, de coque, barba e o pior: completamente definido. Deveria existir uma doença degenerativa que deixasse o ex permanentemente mais feio do que a gente.

– Tudo bem? Vai começar a treinar aqui?

Eu tinha ido cancelar a matrícula. Depois de três meses de faltas me pareceu uma ideia inteligente transferir os 89,90 da academia pra algo mais produtivo. As coxinhas do Ragazzo, por exemplo.

– Na verdade eu tô trancando. Vou me mudar e tem outras coisas também.

Moro na mesma casa há 28 anos, já até aceitei que vou envelhecer ali e me tornar uma daquelas senhoras que vai na padaria de camisolão e Havaianas, bota cadeira de praia na calçada e pinta o cabelo de roxo.

– Que pena, o clima aqui é ótimo.

Enquanto falava ele fazia alguma coisa com o braço que indicava que o clima perto do aparelho que trabalhava os tríceps deveria ser melhor ainda. Gente bonita demais intimida e no meio daquele silêncio constrangedor eu preparava o truque de olhar o celular, tomar um susto e dizer que estava muito atrasada. Antes de conseguir desbloquear a tela, Bernardo disparou:

– Vamos tomar um suco aqui embaixo?

Talvez ele tenha entendido o meu gaguejar como um “sim” e tomou a dianteira.

– Você tá diferente, mudou o cabelo?

– Aham, resolvi passar dois meses sem pintar pra ver como ficava a raiz preta, com esse ruivo desbotado e os fios brancos. Tricolor. Por enquanto tô adorando.

– Quê?

– Nada.

A entrada do Megamatte tem um degrau ridículo, menos de 5 cm, coisa boba, imperceptível. Tropecei. Depois de duas passadas mais longas consegui me manter de pé. A primeira vitória do dia.

– Vocês vão querer o quê?

Estava pronta pra apontar a promoção do pão de queijo com guaraná quando Bernardo me interrompeu.

– Me vê um beterraba com laranja, de 500 e sem açúcar, por favor.

Eu nem sabia que dava pra bater beterraba com laranja e chamar de suco.

– Vou ficar só na água, obrigada. Tô evitando sucralose.

Nem sei direito o que é sucralose, mas ao evitá-la passo a ser dona de uma informação nutricional que nem o Bernardo-gostoso-malhado-bronzeado tem.

– Também me mudei recentemente. Fui pra Copa.

Sempre odiei quem abrevia aquilo que não precisa ser abreviado. “Copa”, “Face”, “Zap”. Será que essas pessoas são acometidas de um derrame na língua que as impede de completar palavras curtas?

– Mas não é longe do seu trabalho?

– Que nada, saí de lá. Agora sou gerente de marketing da Coca-Cola, a gente fica naquele prédio espelhado ali em Botafogo.

– Nossa…

– E você? Ainda continua no cursinho de teatro?

Larguei o curso de teatro em um mês. Curtia a maconha, mas a parte de ficar pelada me deprimia um pouco. Naquele 2014 o teatro se somou ao inglês, à capoeira e à matéria online de filosofia na minha lista de desistências. Não foi um ano muito produtivo.

– Tive que dar uma pausa por causa da novela…

– Novela?

– É, foi só uma ponta nessa última da Record. Você não viu, né? Ninguém assiste novela da Record. Mas serviu pra abrir as portas da Globo. Ano que vem começo a gravar uma minissérie junto com a Bruna Marquezine, até tive que engordar uns quilinhos…

É difícil competir com a Coca-Cola, mas a imagem de férias em Barcelona no iate do Neymar me pareceu adequada.

– Puxa, que legal! A minha noiva foi cenógrafa da Globo.

– Então deve ter trabalhado com o meu marido que é diretor lá.

– Você casou?

– Casei, mas foi cerimônia pequena. Não deu nem 500 pessoas…

– Mas eu não tô vendo aliança.

– Detesto andar com brilhante.

Nesse momento, se quisesse, eu poderia largar a água e passar a beber os litros de suor que se formavam no buço. Depois do término com o Bernardo, a coisa mais próxima que tive de um relacionamento foi a série de cinco encontros com o caixa do Los Paleteros.

– Olha, Bernardo, foi ótimo te encontrar, mas infelizmente tenho que ir, tô cheia de coisa pra fazer.

– Eu também já vou indo, quero correr pra aproveitar essa praia de fim de tarde. Você já surfou?

– No Brasil ainda não.

– Jura? Em qual país?

– Naquele que tem as ondas maiores… Vamos embora?

– O Havaí é maravilhoso, o problema é a viagem muito longa.

– Quando a gente vai de Emirates nem percebe.

– Não sabia que eles faziam voo direto pra lá. Você quer carona? Tô com a minha HB20 parada aqui fora… Isa, você tá chorando?

Não sei se poderíamos chamar aquilo de choro. Estava muito mais para um ataque de histeria mesmo. Talvez a imagem de Bernardo me deixando na frente de um prédio chique enquanto eu implorava para o porteiro me deixar entrar só até o carro cruzar a esquina tenha sido o meu limite.

– Olha, Bernardo me desculpa, mas eu nem sei o que é uma HB20. Quer dizer, até sei que é um carro, mas ele poderia passar do lado de outros 50 carros que eu não reconheceria. De carro eu só conheço o Fusca, a Brasília e o Gol Bolinha, isso porque meu pai tinha um Gol Bolinha. E tem outra coisa, eu não tô me mudando, a Zona Sul só conheço da janela do 474 e eu torço seriamente pra que um dia essa academia pegue fogo e queime os corpos perfeitos de todos vocês. Paguei três meses adiantados dessa porra e não vim nem uma semana completa. Assim como não durei no curso de teatro. Atriz da Globo? Eu não conseguia nem fingir orgasmo quando a gente transava, imagina ser coadjuvante da Bruna Marquezine. Trabalho no mesmo lugar e se alguma coisa mudou foi o fato da Renner ter me dado um cartão alimentação que permite que eu me entupa na promoção do cupom do Bob’s. Tem gente que dá certo na vida, que deixa de ser um analista merda no Centro e vira gerente da Coca-Cola em menos de dois anos, apesar de eu não ter ideia de como isso é possível. Mas também tem gente que dá errado, ok? Então eu dei errado. Tô aqui gorda e pálida, porque jamais trocaria uma manhã de sábado com Netflix por uma praia em “Copa” lotada. Desculpa, querido. Ah, e tem mais uma coisa, beterraba com laranja? Sério? Que nojo, Bernardo, ninguém pede isso, pensa na mulher que vai lavar esse liquidificador, pensa que você poderia atravessar a rua e pedir um açaí cheio de calda de morango e Sucrilhos. É impossível levar esse estilo de vida.

– Nossa, Isa, você é tão sincera. Desde a época que terminou comigo que…

– Espera! Eu terminei com você?

– Isso. Disse que não me amava mais.

– Meu Deus, Bernardo, é verdade! Esse tempo todo e eu aqui tentando ser melhor do que você porque achava que tinha tomado um pé na bunda de um cara que hoje é cosplay do Caio Castro, mas agora a coisa muda de figura, entende?

– Não…

– Bernardo, eu não preciso inventar que sou melhor do que você, porque na vida real eu realmente sou melhor do que você. Eu esnobei um deus grego porque simplesmente “não amava mais”. Bernardo, eu sou um ser superior não me pego em aparência, sou livre, só quero ser feliz.

– Mas, Isa, na época eu não era assim.

– Detalhes, Bernardo, detalhes. Quando eu mostrar o seu Facebook não vou precisar voltar nas fotos de quando você era magrelo, com a cara rebocada de espinhas e esses dois dentes da frente separados. A omissão não é mentira, Bernardo, a omissão não é mentira.

E saiu, assobiando animada enquanto corria atrás do ônibus pro Jacaré.