– Alô

– Oi, boa tarde, eu queria comprar umas palavras.

– Opa, pois não, estamos com uma promoção ótima de “próspero”. Queima de estoque, até 80% de desconto.

– É, mas essa é melhor no fim do ano, não?

– Realmente tem mais saída na última quinzena de dezembro, mas a senhora pode se antecipar.

– Não sei, guardar é complicado. Aqui em casa não tem muito espaço e ninguém tem onde usar o “próspero” nessa época. Acaba sendo meio inútil.

– Isso é verdade.

– Estava pensando em algo mais comum, tipo “por quê”.

– “Por que” tem quatro modelos, mas o manual de instruções é bem complicado, não sei se a senhora vai saber usar.

– Poxa, eu estava precisando tanto.

– Que mal lhe pergunte, é pra usar onde?

– Pra comentar notícia no Facebook.

– Então não precisa. Ninguém usa “por que” em rede social, pode compartilhar.

– Mesmo assim, queria algo que está na moda pra poder bombar.

– Olha, “problematização” o pessoal tem usado bastante.

– Mas o que é isso?

– A senhora nunca ouviu falar? Tem a ver com machismo.

– Não…

– Pergunta pro seu marido então.

– Será que é tipo “apropriação cultural”?

– Essas usaram tanto que nem tem mais.

– E aquele kit de  “mas”/ “mais”, “há”/ “a”, e “dá”/ “dar”?

– Esse a gente só vende com prescrição.

– Médica?

– Ortográfica. O pessoal andava misturando muito e é prejudicial à saúde. De quem lê, no caso.

– Espera, o senhor usou “lê” ou “ler”?

– “Lê”.

– Mas não seria “ler”?

– Não, é “lê” mesmo. As pessoas que andam confundindo muito.

– Puxa, nem me fale. Chega a dar vergonha de lê, né?

– […]

– A senhora nem imagina o quanto.

– E “fora” tem?

– Só acompanhado de nome.

– Que nome?

– “Temer”

– Ah, tá.

– Esse “ah, tá” que a senhora usou foi aquele com duas palavras e vírgula no meio?

– Foi.

– Entendi, pergunto porque a gente andou vendendo muito “ata” pra internet. Tem o mesmo valor, mas escreve junto.

– Mas não confunde com a “ata”?

– Isso ninguém compra mais.

– Aproveitando que o senhor tocou no assunto, tem vírgula aí?

– Vírgula só caixa com mil

– Mas aí é muito…

– Nem, tanto, vírgula, é, sempre, bom, ter, né?

– Pois, é, quando, não, sabe, onde, usar, a, gente, acaba, pecando, pelo, excesso. “Desconfiança” o senhor tem?

– Depende do assunto.

– Estou falando da palavra.

– Ah, sim. A senhora vai votar no Lula em 2018?

– Não.

– Então não tem. “Desconfiança” a gente só vende pra esse tipo de gente.

– Liguei segunda e não tinha “mesmo”. Já chegou?

– Não. Continua esgotado e com previsão pra daqui a três meses. O pessoal semi-alfabetizado gosta muito de usar em um pseudo tom formal.

– Como assim?

– “João deixou comigo o documento. O mesmo pediu que lhe entregasse”. É horrível, mas tem muita saída. Vende junto com o “atenciosamente” pra e-mail.

– Devem comprar também com o “no aguardo” e “no aguarde”.

– Esses na verdade nem existem, senhora. O pessoal compra não sei onde.

– Foi bom, você falar nisso. Vou querer um pacotinho de “onde” ou “aonde”. Qual o senhor indica?

– Depende, a senhora vai comprar?

– Vou.

– Vai mesmo?

– Vou.

– Então “aonde” é melhor.

– Parênteses tem?

– Parênteses só o par e lacrado. Antes a gente vendia avulso, mas o pessoal teimava em abrir e não fechar.

– Que nem aspas?

– Aspas acabou.

– Jura, mas tem tanta saída assim?

– Porra, só nessa besteira aqui a gente gastou 33.