“Uma Mulher Fantástica” poderia ser mais um filme clichê de um pai de família que se apaixona por outra mulher. No entanto, há um detalhe que diferencia o filme dos demais: Orlando, vivido por Francisco Reyes, apaixona-se por Marina, interpretada por Daniela Vega, uma mulher trans. Ela é a mulher fantástica que precisa enfrentar uma sociedade conservadora em um momento complicado, na morte de seu parceiro. Esse drama chileno chegou ao Brasil no dia 7 de setembro após ser aclamado no Festival de Berlim, levando o prêmio de Melhor Roteiro. O filme chileno, inclusive, é visto como uma possível indicação ao Oscar, nada mais justo, pois é hipnotizante e intenso. Ele prende o telespectador em uma sucessão de mistérios.

É importante abordar a questão trans seja na sociedade chilena ou na brasileira. O nosso país, por exemplo, é o que mais mata transexuais no mundo. O filme é importante porque tem esse papel de dar visibilidade. Daniela Vega, após protagonizar o longa, foi convidada para ensaios e capas de revistas. Apesar disso, o filme ultrapassa a temática LGBT, indo muito além.  

Na história, Marina se apaixona por Orlando, um homem casado e 20 anos mais velho que ela. Após um período juntos, ele sofre um infarto e falece. Marina se vê sem o direito de sofrer pela morte de seu parceiro devido à raiva e preconceito da família dele, incluindo, sua ex-mulher e filhos. Sendo assim, o filme não mostra os dilemas de uma mulher trans em transição, mas sim os percalços que ela precisa enfrentar em uma sociedade conservadora na figura da família do seu parceiro.

Marina é uma personagem muito bem construída e possui um ponto a seu favor. Ela não é sofredora o tempo todo como se poderia imaginar. Ela trabalha como garçonete e não sofre problemas internos quanto a sua sexualidade. Inteligente, ela rebate os discursos de ódio quando se sente confortável. Isso foi muito bem pensado pelo roteirista para que a personagem não se tornasse passiva aos acontecimentos. Assim, o público pode criar empatia por ela, não um sentimento de pena.

Daniela Vega, a responsável por dar vida a Marina nas telonas, também é uma cantora lírica trans assim como no filme. Inclusive, ela é mais conhecida por essa faceta do que pela atuação. Em “Uma Mulher Fantástica”, ela tem um desempenho bom apesar de não emocionar o suficiente em cenas mais complexas, o que pode ter sido uma estratégia para não dramatizar todos os passos de Marina.

O argentino radicado no Chile Sebastián Lelio, considerado o novo Almodovar, pensou em um roteiro inteligente do início ao fim. O filme produz metáforas, sendo algumas óbvias e outras nem tanto. Em uma determinada cena, por exemplo, uma forte ventania quase derruba Marina, mas ela se mantém de pé, fazendo uma comparação com a sua vida. Esse é só um dos pontos fantasiosos ou surrealistas que chamam atenção no longa-metragem.

A direção também é boa. O filme brinca com cores monocromáticas e traz cortes rápidos que dão dinamismo em alguns momentos, no entanto, acaba passando a sensação de que faltou algo na cena. Isso produz um mistério que prende o espectador e faz com que ele mantenha a atenção. Entretanto, pode acabar gerando algumas dúvidas quanto à história.

Quando o filme encerra, ele passa a sensação de que a vida de Marina seguirá e prosseguirá. Se Marina inicia cantando uma salsa; no final do filme, ela encerra com uma lindíssima cena de apresentação lírica. Isso mostra que algo mudou dentro de Marina ao longo do tempo. O filme mais que necessário, consegue com sucesso retratar a vida de uma transexual por um viés humanista. “Uma Mulher Fantástica” é delicado e forte ao mesmo tempo.