Não que algum dia eu tenha sido um prodígio, mas mamãe exagerou. Estudei até os dez anos em um enorme colégio público de Nova Iguaçu, passando por lá sem grandes percalços e conquistando, até mesmo, o título de Sinhozinho em uma das festas juninas. Em 2003, cataploft! Papai tinha conseguido um emprego de vigilante numa universidade tradicionalíssima em Piedade. Lá dentro, mais tradicional ainda, tinha um dos colégios particulares mais bacanudos pra classe média, média. Com muita lábia e alguma inadimplência, meu pai descolou uma bolsa de estudos pra mim, pobre iguaçuano miserável.

O sorriso sincero e aberto não imaginava que aquela faixa seria a coisa mais gloriosa que já alcançaria na vida.

Fui tão mal, mas tão mal na prova de nivelamento que a diretora me recomendou voltar duas séries. Meu pai ficou tão puto, mas tão puto que me bancou na série certa. Quer dizer, ele bancou, mas quem pagou fui eu. Poucas vezes as salas do Colégio Gama Filho viram uma borracha cair com tanta frequência no chão quanto nas ocasiões em que a professora Elizabeth (Beth Meleca, eu me lembro) tomava a tabuada. Ela disparava um 8×7 e eu já me escondia pra pegar o pedaço de látex debaixo da mesa antes que o coitado a ser crucificado fosse escolhido. Mamãe apiedou-se e me arranjou a primeira de uma deprimente série de explicadoras.

A explicadora, diga-se de passagem, é uma profissão quase tão obsoleta quanto o datilógrafo. Hoje em dia existe a figura do professor particular, ou, quando o aluno é realmente sincero, da reprovação automática. Mas na longínqua primeira década dos anos 2000, existia mais explicadora do que Tamagotchi. Essa, que vamos chamar aqui de Perneta Macabra, era pertinho de casa, dava pra ir andando.

Por sinal, a jogada do lugar era uma maravilha do marketing moderno. Quem atendia e fazia todas as tratativas era uma jovem universitária. Talvez pela influência negativa do Show do Milhão, em 2003 cursar universidade pra minha família equivalia a doutorado em Harvard, mesmo se a pessoa fosse aluna da Estácio. A Jovem Universitária conversava com os pais sobre o seu “método de ensino”, dizia que ali o ritmo era “puxado” e arrematava com um longo relato sobre o curso que fazia na universidade (não deixando de destacar o quanto era jovem E universitária). Os pais, que no seu interior também desejavam ter os seus próprios jovens universitários, confiavam os filhos àquela estelionatária. No primeiro dia, que surpresa! A Jovem Universitária nunca dava as caras e a verdadeira responsável pelas aulas era a mãe dela, uma senhora de rosto nada amistoso que mancava da perna direita.  Demorei três dias pra tirar os olhos daquela canela muito fina e talvez ali ela tenha pegado pinimba comigo. Sentia tanto medo daquela mulher que conquistei o benefício de apagar quase todo o período que passei por lá. Na memória, apenas a ocasião em que demonstrei a uma coleguinha as proezas flexíveis do lápis verde da Bic. A idiota foi fazer igual e quebrou o lápis. No dia seguinte a mãe mandou um bilhete na agenda, ressentidíssima com o prejuízo de 49 centavos.

Enverga, mas não dobra.

Consegui a minha alforria daquele lugar deprimente quando fui um dos três selecionados no célebre concurso literário do colégio. Papai ficou tão orgulhoso do nome do filho ser publicado em um livro que, do auge da sua humildade, foi esfregar a vitória na cara da diretora que me mandara entrar na segunda série.

O concurso elegia três autores de cada série e publicava aqueles acidentes literários em um livro no final de ano. Ganhei três vezes e meus pais acharam que criavam um Jorge Amado.

Precisei de explicadora menos de um ano depois. O que, vamos combinar, não foi nenhuma surpresa, dada a minha certeza quase absoluta de que o esquadro era um instrumento de tortura. Dessa vez mamãe mudou a direção e arranjou uma no caminho do colégio. Essa era apenas jovem e, por não ser universitária, cobrava 20 reais a menos que a primeira. Era um prodígio a menina, não tinha nem 18 e já terminara o Ensino Médio. Precoce, precoce mesmo. Tão precoce que engravidou aos 16 e teve que interromper as aulas que dava. Senti-me tão mal que parecia o filho ser meu. Foi a única explicadora que não demiti.

Mamãe, ainda ela, não estava segura nos meados da sexta série e mesmo com o meu desempenho mediano, achou mais seguro me matricular na terceira explicadora. Essa era filha de uma amiga e tinha apenas a expectativa de universidade, Direito, acho, por isso cobrava 5 reais a mais que a segunda e, corrigida a inflação, 15 a menos que a primeira. De toda forma, atenta à fidelização do cliente, a primeira aula era gratuita (depois descobri que fidelizar era realmente muito importante já que eu era o único cliente).

Ela levou 20 minutos pra chegar à terceira linha de uma equação do 2° grau. Enquanto pensava, murmurava algo que, no início, eu julgava ser uma conta mental. Era mental sim, mas não era conta. Que Deus perdoe o fato de a cinco parágrafos atrás eu ter zombado da deficiência física e agora ridicularizar a esquizofrenia, mas trancar  uma criança numa casa onde uma mulher conversa com o nada é realmente cruel. Se ela trocasse algumas palavras até ia, mas o papo era firme mesmo, coisa de rir e o diabo. Pra completar, quando a gente chegou em química, as dúvidas eram tantas que ela pegou a minha caneta e começou a coçar freneticamente o ouvido.

– As ligações iônicas… – movimentos circulares da caneta dentro do canal auditivo – começam quando… – movimento de vai e vem na parte externa – um dois íons… – nova incursão no canal auditivo.

No final da aula ela me estendeu a caneta e eu disse um tímido “pode ficar”.

O remorso da minha mãe por ter me levado a alguém que poderia ter entregue o corpo do filho em pedaços simétricos, me garantiu o período mais longo do ensino fundamental longe de explicadoras: 11 meses. Fui expulso do paraíso graças a um 2,5 na prova de matemática (valia 20). Sabiamente, escondi a prova do meu pai até que arranjasse uma solução alternativa, a morte de um parente ou um acidente de carro, por exemplo. Meu pai, que era muito mais enturmado naquele colégio do que eu, descobriu uma semana depois. Antenadíssimo nas novas tendências, ele trocou a surra por um castigo não físico: escrever 300 vezes “não devo mentir para os meus pais” em um caderno. Levei quatro dias e até hoje prefiro que ele tivesse quebrado meus dentes.

O desempenho pífio em matemática me levou a Marleide. Marleide não era jovem e nem universitária, mas vinha com tão boas referências que cobrava a enorme quantia de 60 reais. Inclusive, se eu fosse Marleide, pegava os 60 de cada aluno e rebocava minhas paredes, mas eu não vim a esse mundo pra me meter na vida de ninguém. Além de uma casa rústica, Marleide tinha uns peitos enormes, enormes mesmo. Umas coisas tão desproporcionais que quando ela engravidou, sim, eu devo despertar algo de fértil nas mulheres, nós ficamos com um medo danado do bebê sufocar na hora do mamá. Marleide tinha uns peitos tão grandes que uma vez o bebê caiu no chão e, sem perceber, ela continuou ninando o seio direito. Eram tão grandes que pra dormir de bruços, ela teve que triturar os três últimos ossinhos da coluna. Tão enormes que se ela retirasse um nódulo certamente o Rio teria outro Corcovado.

Além de inúmeras piadas mamárias, Marleide foi de longe a melhor explicadora que tive. Quando já não arranjava novas formas de explicar alguma coisa, ela pegava o caderno da gente e fazia ela mesmo o trabalho de casa. Não aprendi nada, mas minhas notas melhoraram bastante. Ainda voltei em Marleide antes de fazer prova pro CEFET, mas naquela época já era eu que ensinava coisas a ela e a relação já não me parecia tão vantajosa.

A última explicadora da série era tão maravilhosa que valia por todas as outras. Lucimar estava longe de ser jovem, mas era universitária. Fazia enfermagem no Fundão e sabia trocar erres por eles na exata proporção que te fazia questionar como ela havia entrado lá. Deve ter sido num desses acidentes sonoros que ela conheceu minha tia e acabou lá em casa. Suprassumo do conforto. Lucimar vinha direto da faculdade e enquanto surrava a puta da língua portuguesa me dava aulas na mesa da sala. Mamãe, por educação, no início preparava uns biscoitos com suco, depois evoluiu pra sanduíches, frutas, refrigerante, bolos, tortas, e, salvo engano, desconfio que certa vez Lucimar tenha comido uma refeição completa lá em casa.

Quando meus pais entenderam que pagar à explicadora uma mensalidade mais 30% do que tinha na dispensa era estupidamente dispendioso, Lucimar foi demitida. Tive pena e ainda sugeri que a rescisão dela fosse convertida em cesta básica, mas ninguém aceitou. Guardo com muito carinho a imagem da sua mandíbula se movimentado, não por amá-la e sim porque foi dela o mérito de ter colocado fim ao meu calvário explicatício.

No início do ano passado fiquei um longo inverno desempregado. Minha mãe vendo o meu princípio de desespero, sugeriu:

– Você ainda é novo, tá quase terminando a universidade… Enquanto não aparece nada, bem que podia arranjar uns coleguinhas da sua irmã e começar a dar umas aulas aqui em casa.

Passei dois meses sem falar com ela.