Acabo de ser surpreendida ao ver uma balzaquiana puxar um tablet da bolsa. Em tempos modernos, julgava ser um dispositivo utilizado apenas por pais tolos a fim de controlar crianças ignóbeis. É curioso. O pivete faz um escândalo de 5 minutos até a mãe ser coagida a esticar o aparelho. O chantagista para, pondera, e, estimulado por sabe Deus quais demoníacos encantos de uma galinha geneticamente modificada, é convencido de que a tecnologia dará mais prazer do que o processo de humilhar aquela pobre diaba. O tablet é quase sempre uma prova do fracasso paterno.

A moça interrompe o teclar e atende o celular. Posso viver mais um século e não vou me acostumar com sinal de telefone embaixo da terra. O metrô perdeu a sua característica fundamental: isolar pessoas.

-O seu filho está sentado no lugar do idoso.

– Quê?

– Esse lugar é do velho, do gordo, do aleijado e… da grávida – merda, a cabeça me impediu de pensar numa ofensa para as grávidas.

– Desculpe…

– Vai tomar no seu cu.

– Quê?

– Oi?

A idade dá alguns benefícios à gente. Há 15 anos, quando Mônica acreditou cumprir a obrigação de uma filha suburbana e se despencou para morar comigo, comecei a testar os louros da velhice. “O Sérgio já chegou?”. “Hoje é terça, mãe, o Sérgio só vem no sábado”. “Ah”. Marcava 45 minutos de relógio, focava no nada e emendava: “O Sérgio já chegou?”. “Mãe, hoje é terça, o Sérgio vem no sábado”. Dava um descanso para ela, e depois da novela das seis fazia uma observação. “Anoiteceu… O Sérgio já chegou?”.

-Se continuar chutando o banco, a vovó vai te dar uma porrada que você nunca sentiu na vida.

– Você não é minha mãe pra me bater.

– Por isso mesmo.

A Mônica achou que eu estava ficando senil. Não aguentou dois meses, coitada. Estava pronta para buscar um desses lugares que enterram pessoa viva e produzem as imagens que alimentam programas sensacionalistas.

– Olha essa vagabunda agredindo a idosa. Olha os tapas que ela dá na idosa. Ela enfiando a cabeça da idosa na sopa, que absurdo, meu Deus, que absurdo. Parece que a gente tá com a idosa na linha, é isso mesmo diretor, é isso? Alô, Dona Velha?

– Oi.

– Que covardia fizeram com a senhora, hein.

– Nem tanto, Datena. Você já cuidou de velho? É uma praga, demora pra levantar, adora quebrar o fêmur e se suja logo depois de limpar. Até eu bateria em mim mesma se ela me desse a oportunidade.

Três mil reais a mensalidade, disse o sujeito com um sorriso que mostrava uma ruptura completa do fio que o ligava a realidade. A imbecil da garota ainda tentou somar a minha aposentadoria com a pensão do ex-marido. Nunca foi muito boa em matemática.

-O que você acha, mamãe?

– Não seja idiota, Mônica. Me mata que sai mais barato.

Criei essa menina bem demais. Ou muito mal. Depende do ponto de vista. Qualquer outra infeliz deixaria a mãe em algum lugar e ia curtir a vida com a aposentadoria roubada.

-Mãe, ela me beliscou. Ahhhhhhhhh.

– Vamos soltar, Pedrinho.

– “Saltar”.

Ela me olhou com ódio, fiz cara de idosa. Antes de sair o garoto ainda pisou no meu pé. Olha, que demônio! E ainda querem proibir o aborto.

-Se a senhora acha melhor…

A Mônica foi convencida a me deixar em casa mesmo. Comprei umas aspirinas na farmácia, botei num frasco colorido e disse que era remédio para cabeça. Tomava todo dia de manhã, e na segunda semana eu podia escalar os parentes que morreram na última década. Foi até bom porque coincidiu com a época em que o ex-marido arrumou uma namorada mais nova e a idiota ganhou outras prioridades.

-Ele pisou bem com a rodinha… É, era um daqueles tênis que tem rodinha atrás. Isso, aquele que a gente torce pra criança cair e ter traumatismo craniano, mas ela não cai. Se está doendo? Não, não, essa unha sangrando sempre foi pra fora mesmo. Eu tinha é que ter enfiado o tablet no rabo dele.

-Mamãe, pensei melhor e agora acho que tinha que ficar aqui. Nem tanto pela senhora, é mais por mim mesmo. Não sei se aguento essa situação do Cláudio desfilando com uma… com uma…

– Ai, Mônica, não começa a chorar de novo, pelo amor de Deus. Vai, pega o lenço. Não, você não pode ficar parada, tem que correr atrás do seu amor. Esse homem é seu por direito. Reconquista ele!

Ainda faltam mais sete estações até chegar em Copacabana. O metrô agora tem mais estação do que eu tenho de veia saltada na mão esquerda. “Te leva até a puta que pariu” diz o cartaz. Entraram duas garotas e começam a conversar do meu lado. Não gritam, mas já é naquele tom que faz você parar de prestar atenção no que está fazendo e começar a prestar atenção nelas.

-Em Nova Iorque, assim que você chega, é até engraçado, porque assim que você chega, tipo, tem brasileiro em todo lugar. Fui tomar um café na Starbucks e: brasileiro, comprei uma bolsinha na 5° Avenida e: brasileiro, fui na Broadway e… Quer dizer, a gente sai desse país e continua ouvindo português, aff. Quando fui pra Paris…

Nos últimos tempos ganhei varizes que me impedem de ficar em pé por mais de dez minutos, tendinite que não me deixa carregar peso e glaucoma que turva a visão. A surdez Deus não me deu. Vagabundo.

Eu só queria que ela saísse da minha casa. É lógico que não acreditava em nada daquilo. Homem quando vai assim só volta se tomar uns cornos da ninfetinha. A Mônica na tentativa desesperada de reconquistá-lo começou a usar uma roupas curtas e apertadas. Bem acima do peso que a Boa Forma ensina, ficou ridícula, claro. Mas pelo menos ficou ridícula longe de mim.

Abriu a porta, corre. Já preparo o cotovelo para ir na direção do osso da ponta da bacia de quem me empurrar. Hoje em dia meu braço bate na cintura das pessoas. É até engraçado que a gente vai encolhendo quando envelhece, meio que se dobrando. Em algum momento da minha vida me lembro de ter sido uma Frost Free prateada, hoje pareço um frigobar descascado. Velho não morre, velho acaba.

Eu não odeio a Mônica. É minha filha, tem que amar. Se ela tivesse um câncer de repente juro que me despencaria da tranquilidade do meu lar para ir segurar a testa dela depois da sessão de quimio. Ela é até uma pessoa boa, reconheço. Mas também reconheço que já fiz bolos de laranja melhores.

Não, meu anjo, fica tranquila. Pode ir mais devagar na frente de cinco mil pessoas com pressa, vai, no seu tempo, linda. As pessoas não estão preparadas para andar em sociedade. Veja bem, eu nem disse viver em sociedade, disso já desisti tem tempo. Digo andar mesmo, o pardieiro do Detran deveria instituir uma carteirinha de pedestre. Só sai na rua quem tem o mínimo de habilitação para não atrapalhar os outros.

Como condição para ir embora a Mônica pediu que eu ligasse duas vezes por dia. Marco o despertador para às 6:47, hora em que ela está se preparando para levar aquela sonsa da minha neta para o colégio, lugar onde a garota certamente vai repetir a terceira série. Ligo de novo dois minutos antes de começar a novela das nove, evento que na ordem de importância do dia só perde para o Facebook da namorada do Cláudio. É maravilhoso, Mônica nunca tem muito tempo para falar comigo.

Chego no consultório e a secretária do Dr. Arthur agora é outra, um rosto um pouco conhecido, parecido com…

-A senhora estava dentro do metrô hoje, não estava? Eu te vi! Se soubesse esperava pra vir junto.

Olha se não é a mocinha do tablet. Devia estar lendo a versão online de um livro de autoajuda. Para trabalhar para o Arthur tem que ser no mínimo, mais estúpida que ele.

-Jura? Não te vi… a catarata, minha filha.

– Meu nome é Sandra. Sou a nova assistente do Dr. Arthur.

– Ele cansou de comer a antiga?

– Quê?

– Oi?

– A senhora trouxe os exames?

– Não, essa sacola imensa do Bronstein é pra catar pombo. Você já pegou pombo?

Respondo metade das perguntas que me fazem com sarcasmo sussurrado. A outra metade não respondo. Eu posso. Sou velha.

-Os exames estão ótimos. Se continuar tomando os remédios direitinho a senhora ainda vive muitos anos.

– Ai…

Já falei que o Arthur é um palerma? Eu certamente trocaria de médico, se o processo de socializar tudo de novo não me desgastasse tanto. Sinceramente não sei por que alguém vai querer viver além de uma certa idade. Sério, o que tem pra descobrir depois dos 75? Escara?

-Posso começar a fumar?

Ele riu. Achou que era piada. Eu achei que era uma forma de acelerar o processo. Também só não fumo porque não quero. Meu tempo de começar passou. Quando o cigarro surgiu, mulher fumar era feio, depois ficou bonito, depois ficou feio de novo. Por isso que nunca tive preconceito com nada, temo adotar uma pauta que fique desatualizada do dia pra noite.  Manter-se preconceituoso hoje em dia exige muita disposição.

-A senhora soube que o Seu Borges que vinha aqui morreu? Pelo menos foi dormindo, descansou.

Ninguém morre dormindo, Dr. Arthur. Em algum momento em que comprou esse diploma da Castelo o senhor deveria ter aprendido isso. O Borges deve ter acordado de madrugada, sentido um elefante fazer tributo a São Longuinho no peito, pensado no tanto que traiu a Bia, tentado gritar enquanto a glote fechava, visto o espírito da Bia gargalhar dele, agarrado desesperadamente a quina da cabeceira, e só depois morrido. Com certeza ele não descansou.

-Comprei isso pela alma.

Ele tinha acendido uma vela de 7 dias e colocado sobre um altarzinho. Também fez um relato de como foi o velório. Não prestei atenção, fiquei pensando em quanto tempo uma pessoa leva para queimar completamente quando alguém joga uma vela em cima. Talvez pressentindo o perigo, ele retornou a personalidade de médico de plano de saúde e encerrou a consulta aos dez minutos.

-Bom, Dona Velha, a senhora já tem meu telefone, né? Qualquer coisa liga. Nos vemos no mês que vem?

– Se Deus quiser…

– Ótimo, ótimo. Assim é que se fala!

– … se Deus quiser eu morro antes.

Detesto deixar frase pela metade.