Jair piscou duas vezes e encarou de novo o gráfico que agora a Ana Paula mostrava no centro da tela. Cinquenta e quatro por cento. Cinquenta e quatro por cento. Cinquenta e…

A porta se abre num estouro.

– Presidente!

– Ô Marcondes, você tá vendo a Globo?

– Tô vendo, presidente. Vencemos! Vencemos!

– Mas será que tá certo? Não dá pra pedir recontagem? Liga pro Aécio, liga pro Aécio.

– Tá certo, presidente, as urnas não mentem.

– Puta que pariu, como isso foi acontecer?

– As pessoas votaram, o brasileiro expressou a sua…

– Porra, Marcondes, que as pessoas votaram eu sei, mas por que votaram em mim??? Não tinha um outro lá, o…

– Luís, presidente.

– Isso, Luís. Por que não votaram no Luís?

– É que a biografia do Luís, né presidente…

– Mas e a minha biografia, Marcondes? E a minha biografia? Eu nem tenho biografia nenhuma.

– Eu não tô entendendo.

– Era brincadeira, Marcondes. Brin-ca-dei-ra. Tava lá um dia de boas, aí o Eduardo chegou em mim e falou: Jair, já pensou você presidente. Rimos. Rimos muito mesmo, ficamos vermelhos de tanto rir. Eu até confesso que dei uma mijadinha de tanto rir. Foi ali que começou a troça, piada interna, coisa boba.

– Eu até compreendo que o senhor esteja nervoso.

– Que nervoso, Marcondes? Quem tá nervoso? Eu tô é indignado. Como vocês foram aprontar essa comigo? Passei toda uma carreira mostrando níveis altíssimos de incapacidade e as pessoas fazem isso? Votam em mim? Em mim, Marcondes???

– Calma, presidente, o senhor tá suando.

– Eu tô hiperventilando. Me grita o Brito pelo amor de Deus. Britooo!

– Presidente…

– Porra, para de me chamar assim. O que deu em vocês hoje?

– Brito, eu tô aqui explicando pro deputado o resultado das eleições, ele não está acreditando muito que…

– Brito, Brito, meu filho, você que tá comigo desde o início, diz aí, quantos anos eu tenho de vida pública?

– Quase 30, Jair.

– Quase 30, Brito. E em quase 30 anos eu aprovei quantos projetos de lei? Quatro?

– Na verdade dois.

– Porra, dois, dois, Marcondes. Dois. Uma pessoa que aprova dois projetos pode ser presidente? Vocês estão querendo me fuder.

– Provavelmente gostam do senhor por causa das plataformas.

– Que plataformas? Entendo porra nenhuma de economia, Brito. A gente copiou o plano econômico do livro da Miriam Leitão.

– Mas não é economia, Jair.

– Ué, economia não é importante?

– É importante, mas você se destaca mais nas outras plataformas. A das minorias, por exemplo.

– Eu defendo minoria?

– O senhor ataca minoria, presi… deputado. Os homossexuais, lembra?

– Eu ataco viado??? Por que eu ataco viado, Marcondes? Eu adoro viado, meu melhor amigo é viado, meu filho do meio… minha casa é cheia de viado, Marcondes. Fiz meinha no colégio, me vesti de Drag num carnaval, tô com purpurina na cueca até hoje.

– Desculpa, deputado, mas o senhor não sabia que atacava minoria?

– Como eu ia saber que ataco minoria, Marcondes? Quem escreve meus discursos é aquele menino do Porta. O Eduardo que me indicou. Era piada. Pi-a-da.

– Mas agora é tarde, Jair. A imprensa tá toda lá embaixo esperando uma declaração, o telefone não para de tocar. Querendo ou não você é o presidente pelos próximos quatro anos.

– Quatro??? Como assim quatro? Por que que o Michel fez só dois?

– A situação do Michel era diferente, Jair.

– E não dá pra fazer só dois também?

– Não dá. Tem que ser quatro.

– E se eu renunciar?

– Aí assume o vice.

– O …

– Isso.

– Mas esse aí não é aquele que defendeu intervenção militar ano passado?

– O mesmo.

– Puta merda, só piora. Pega o meu Frontal na gaveta, Marcondes.

– Deputado, por que você não desce lá e fala qualquer besteira, agradece. Olha, cita o Ustra.

– Que Ustra?

– O torturador Ustra da Ditadura Militar.

– Nunca ouvi falar.

– Como não, o senhor dedicou o voto do impeachment a ele.

– Eu vou lá saber a porra que dizia no impeachment? Quem fazia minhas falas naquela época era o roteirista do Zorra. Chama o Flávio aqui, o Flávio vai saber o que fazer.

– Jair, acabou de dar aqui no G1, tá tendo uma manifestação gigante do movimento feminista contra a sua eleição.

– Onde é? Vou lá.

– Eu não acho que seja uma boa ideia brigar nesse momento.

– Que brigar? Quem falou em brigar? Eu vou é me unir a elas. Olha o Flávio aí, Flávio, Flávio, meu filho, vem cá.

– Papai, as pessoas estão ligando. Agora mesmo o Donald…

– Que Donald? O Pato Donald?

– Acho que é o outro presidente, Jair.

– Brito, ô Brito, olha, não dá pra mandar o Flávio no meu lugar? Ele é novo, tá super por dentro dessas idiotices todas. Eu passo o poder pra ele, pronto. Eu passo.

– Isso não é legal, presidente.

– Porra, como não é legal, a Elizabeth não fez semana passada e passou pro neto?

– É que a Inglaterra é uma monarquia.

– É? E aqui é o que que é?

– Pai, se acalma, o senhor não quer ligar pra alguém? Pra algum amigo mais experiente, sei lá.

– Isso, amigo, amigo. Pega o número da Maria do Rosário do PT. Anota, DDD 54…

– Essa não pode, presidente.

– E por que não?

– O senhor disse uma vez que ela não merecia ser estuprada porque era muito feia.

– Eu… Eu…???

– Foi o roteirista do Pânico, Jair, na época a gente demitiu.

– Mas, Brito, todos os redatores de discursos dele são comediantes?

– Não. Alguns são só sobrinhos.

– Flávio, eu desço, eu desço lá. Pega meu terno e a camisa da CBF, vou com a camisa da CBF por baixo, bem patriota.

– A arma também, papai?

– Deus me livre, tenho horror a violência. Marcondes, liga pro menino da produção do Danilo. Por que eu não dou a primeira exclusiva pro Danilo?

– Porque o Danilo é de um programa de humor.

– E eu sou o quê?

– Jair, a primeira tem que ser coletiva, não adianta.

– E o que é que eu digo?

– Bom, o menino que escreve pro Adnight acabou de ir no banheiro… Mas fala da redução da maioridade penal, diz que é a primeira coisa que você vai mandar pro Congresso.

– Mas, ô Brito, os presídios já não estão cheios?

– Pra caralho.

– E vai botar mais gente?

– É melhor eles presos do que soltos, né Marcondes?

– Na verdade, hoje, a taxa de reincidência é superior a 24%

– Porra, Marcondes, cala a boca e vai chamar o elevador. Jair, Jair, olha pra mim, desce, desce lá que já vai entrar o Fantástico e você ainda nem falou.

– Desço, Brito, mas presta atenção, ainda devem faltar uns dois meses pra essa palhaçada começar. Até lá a gente tem que mudar algumas coisas, eu tenho que parecer mais equilibrado, moderado, uma coisa mais sóbria, menos gritada.

– Entendi, presidente, entendi. Mais sóbrio, menos gritado… Então é melhor demitir o roteirista do Vai que Cola, né?