Quando duas estrelas pop resolvem lançar seus documentários em datas tão próximas, nada mais natural do que fazer comparações entre eles. Claro que Lady Gaga e Demi Lovato à primeira vista têm poucas coisas em comum, mas garanto que as cantoras são mais parecidas do que a maioria pensa. Para começar, apesar de Stefani Germanotta  – nome verdadeiro de Gaga – possuir uma base de fãs consideravelmente maior do que a de Lovato, garantindo a presença da cantora em grandes eventos como o Super Bowl e (quase) o Rock in Rio, tanto os Lovatics como os Little Monsters admiram a força das ídolas. E é essa força que vai ser o tema central dos filmes.

Apesar de não relatar isso nesse documentário, Lady Gaga já sofreu com transtornos alimentares e até hoje lida com depressão e ansiedade. Demi, diagnosticada com bipolaridade em 2010, lida atualmente com anorexia e bulimia. Além disso, ambos os filmes nos trazem as visões das cantoras sobre haters, mídia, perda de familiares, relacionamentos e sexualidade. E, como uma boa peça de marketing, os dois relatam o momento de produção do último álbum de Gaga – Joanne (2016) – e de Demi – Tell Me You Love Me (2017).

O documentário de Lady Gaga, Gaga: Five Foot Two – uma referência à altura da cantora (1,60m) – foi feito pela Netflix. Já a direção e a fotografia, típicas de um filme bem intimista, ficaram por conta de Chris Moukarbel. Desde sua estréia, dia 22/09, o longa vem chamando bastante atenção. A maioria dos críticos adoraram o filme e o recomendam tanto para fãs, quanto para pessoas que querem conhecer mais Stefani. Apesar de tratar de temas já conhecidos superficialmente pelo público, como sua doença, o falecimento de sua tia (Joanne, que dá nome ao álbum) e suas dores crônicas, o longa aborda as questões de uma forma muito crua, próxima e inédita.

Durante 1h40 não vemos momentos da infância de Gaga serem retratados, nem nada parecido. O filme foi feito exatamente para se focar no presente, pontuando as dificuldades atuais da cantora. Óbvio que, como ela dá um grande destaque à morte de sua tia, que também teve lúpus como ela, que aconteceu 40 anos atrás, conseguimos entender melhor a dinâmica familiar e o passado de todos. Mas as lembranças não são o que importam aqui.

O grande propósito do documentário é mostrar a normalidade de Stefani. E o diretor faz isso de forma brilhante, já que a maioria dos offs e entrevistas não acontecem em estúdios ou com produções, mas sim ao longo de uma gravação do álbum, na piscina, em um estacionamento. Mas, temos poucas pessoas falando de Gaga. Creio que o propósito era passar a visão que cantora tem dela mesma, por ela mesma.

No meio de temas polêmicos, como eleição presidencial dos Estados Unidos, uso de drogas e nudez, conseguimos entender e ver a preparação de Gaga não só para o lançamento de seu disco, mas para o grande espetáculo do Super Bowl. Porém, acho que a chave do filme é a vulnerabilidade que Stefani procura mostrar. Não são poucas as cenas de choro e desabafos que acontecem entre shows, entrevistas e ensaios coordenados pela faceta perfeccionista dela.

Enquanto isso, Simply Complicated, documentário de Demi Lovato, foi postado no Youtube dia 17/10. Em menos de uma semana já tinha quase 8 milhões de visualizações e grande repercussão, seja no site, na base de fãs ou entre outras celebridades. Todos diziam o mesmo: a força da cantora de apenas 25 anos é de impressionar. Aparentemente, Demi participou de todo processo de seu filme, dirigido por Hannah Lux Davis e produzido pela companhia de seu empresário e grande amigo, a Philymack Productions.

Acredito que o maior desafio do filme era se diferenciar do outro documentário da cantora,  Stay Strong, lançado em 2012 pela MTV. E a maneira pela qual a produção optou por fazer isso é muito perspicaz: logo nos primeiros minutos de Simply Complicated, Demi avisa que a última vez que fez uma entrevista tão longa assim, estava sob efeito de cocaína, na gravação de seu último documentário.

Isso é um baque inicial bem grande, já que o primeiro longa se foca na sobriedade de Demi e em como ela conseguiu superar seus vícios em drogas. Ou seja, uma grande mentira. Então é bem difícil não ser fisgado pelo filme logo aí. Depois, somos levados à uma nostálgica viagem do tempo pela infância de Lovato. Seus traumas com seu pai (já conhecido pelos fãs, mas pouco compreendidos), seu início de carreira e o começo de sua longa jornada contra depressão.

Simply Complicated, assim como Gaga: Five Foot Two, procura mostrar a vulnerabilidade da cantora. Porém, sinto que Lovato faz isso de forma menos exposta. Diferente de Lady Gaga, as entrevistas com empresários, amigos, familiares são todas produzidas e Demi só é vista chorando uma vez no filme. Entretanto, isso não tira o valor do documentário; na verdade, o deixa mais dinâmico. Apenas corre o risco de ser artificial.

Mas, quando se trata de sua vida amorosa e seus transtornos alimentares, Lovato é duramente verdadeira. Se abre e se mostra sofrer como poucos teriam coragem. E é nesse sofrimento, nesse conforto em permitir-se ser frágil e humana, que vemos e entendemos a origem de muitas faixas de seu novo álbum. O gancho com suas últimas músicas é feito de forma delicada, mas perceptível: ou seja, o documentário visa vender o álbum, mas não é a prioridade. Uma fórmula certeira, porque, sinceramente, é muito difícil assistir ao filme sem ter vontade de correr e ouvir todas as músicas do Tell Me You Love, tentando interpretá-las.

De fato, são dois documentários bem diferentes, sobre pessoas distintas, mas que possuem suas semelhanças. De qualquer forma, ambos são grandes recomendações para qualquer fã do mundo pop, seja por admiração às cantoras ou seja apenas por curiosidade, para entender melhor o que todos estão falando sobre.