Quem diria que o Frank Underwood da vida real era tão ruim quanto o Frank Underwood da ficção? Sim, nobre teoremista, em menos de cinco dias Kevin Spacey explodiu a nossa admiração e feriu de morte aquela que provavelmente é a melhor série da Netflix de todos os tempos. Logo após o fim da semana passada, a pergunta que permeou a cabeça de milhares de fãs (além de “meu Deus, como ele pode ter feito isso??”) foi, “como fica House of Cards depois da demissão do seu protagonista?”. O futuro do ator é mais ou menos previsível. Ele vai se tornar um cadáver insepulto vagando desempregado pelas ruas de Hollywood. Agora, a série, meus amigos, a série…

Se você está super atualizado com House of Cards, inclusive marcando presença na última temporada, continue lendo essa tolice normalmente. Entretanto, se você tem menos de cinco seasons no currículo, pule direto para os três últimos parágrafos

[Início dos spoilers]

Ainda na esteira da denúncia de Anthony Rapp, a Netflix anunciou que a próxima seria a última temporada do drama político mais bem construído do mundo. Ok, a gigante é inteligente e sabia que, normalmente, uma denúncia de assédio nunca vem sozinha, correto? Talvez. Os apaixonados por HOC deviam desconfiar que não tinha mais para onde ir. Vejam, Frank era congressista, conspirou, virou vice-presidente, conspirou, virou presidente, renunciou e deixou a mulher no seu lugar. No meio do caminho ainda matou um pessoal aí e transou com um outro. No sexto ano ele apareceria à margem de uma Claire poderosa passeando pela indústria do lobby e enfrentando (outra) denúncia. Sério, alguém consegue imaginar mais do que 13 episódios disso? Talvez um Frank voltando a ser presidente? Congressista? Desprestigiado do jeito que o bichinho andava, ele conseguiria comandar o jogo com o poder de antes?

Ao mesmo tempo, desde a quarta temporada, House of Cards criou uma outra protagonista. Foi nos embates com o marido, naquela história de disputa ao Senado, que Robin Wright foi alçada ao mesmo nível de Spacey. Nas primeiras temporadas, apesar de leves turbulências, ela era colada na figura dele, um satélite, uma coadjuvante relevante, mas uma coadjuvante. Eis que no terceiro ano, Claire começa a se rebelar. É ali que a série vira campo do Casal Underwood. Mais ou menos unidos, os dois eram gigantes do mesmo tamanho.

House of Cards parecia antever a queda de Kevin Spacey, e agora o terreno está pronto para a presidente brilhar sozinha. Inclusive o negócio é tão louco que ela já vinha “falando” com a câmera, um dos pontos altos da trama, há algum tempo (principalmente na última cena do quinto ano). Sem contar que o drama ainda tem muito castelinho para construir, ou desconstruir de vez. Na próxima temporada a gente tem que ver uma investigação sobre a morte de LeAnn, o desenrolar da acusação contra Doug (outro maravilhoso), o que restou da sanidade de Will e as artimanhas de Usher.

É lógico que Kevin Spacey vai fazer falta. Apesar de uma péssima pessoa, ele é um monstro na atuação e, como dito mais acima, a história foi construída por e através dele. Por isso, vai ser difícil engolir o seu desaparecimento da história de maneira lógica (a sorte é que o caso anda tão escancarado que os roteiristas contam com a cumplicidade do público). Muita gente tem apostado na morte do personagem, algo que, salvo engano, a Netflix e a MRC não confirmaram. É uma saída. Se partir por aí, House of Cards deve flertar com as novelas brasileiras em um clássico “quem matou?”. Uma prisão talvez? Pouco provável. Como deixar Frank preso sem mostrá-lo uma única vez? Uma fuga, já que ele não foi perdoado por Claire? Só teria sentido se depois descobrissem a morte e retornássemos ao “quem matou?”.

A única certeza é que, independente do caminho, a próxima temporada deve ficar para 2019 ou para o entardecer de 2018, já que os roteiristas precisam reescrever a bagaça toda. Sim, Kevin Spacey bagunçou, mas não afundou House of Cards.

[Fim dos spoilers]

Antes de fechar, impossível não constatar que a queda do astro produz, no mínimo, um arranhão na rainha do streaming. Vejam bem, a Netflix projeta uma imagem super pra frentex, é politizada, “menina” nas redes sociais e anda bem antenada nas pautas das minorias. Eis que, shazam! O astro de uma de suas pioneiras assediava inclusive rapazes que trabalhavam na produção do programa. Difícil, né? Ok, sempre pode se argumentar que a série não é feita “dentro” da Netflix e sim através de uma produtora (ficando a plataforma apenas com a exibição e coprodução). Não era sala, mas era quintal. Será que dá mesmo para separar? Que políticas a empresa mais pop dos últimos tempos vai tomar a fim de coibir ações desse tipo? Já pensou criar um Harvey Weinstein sem coleira por aí?

Quando a merda já estava infiltrada nas engrenagens do ventilador, aí, e só aí, a Netflix demitiu Spacey. Mas a essa altura já não sobravam tantas alternativas, né? Talvez a Globo tomasse a mesma medida se o Zé Mayer apalpasse outras figurinistas. Por último, há de se louvar esse sem número de homens e mulheres corajosos que vêm a público. Quando alguém surge para contar algo tão íntimo, encoraja outros a denunciarem colegas de trabalho, professores, parentes, etc.

Encerrando mesmo, de vez agora,  fica aqui a torcida para que o movimento chegue logo ao Brasil e não fique restrito à televisão. Como sabemos, em silêncio e bem aqui no fundo, temos muitas cabeças a fornecer a essa enorme guilhotina que anda decapitando assediadores.