– Amor, aproveita e pega um Buscopan na minha bolsa, por favor.

– Nossa, Isadora, mas você já vai tomar outro comprimido? Aqui em casa as meninas não sentem tanta cólica assim…

– Eu também não sinto cólicas, Dona Lourdes, o que eu sinto é um alien armado com uma Tramontina arrancando e mastigando as minhas entranhas. Amor, pega o Buscopan?

– Menina, imagina então quando for ter filhos.

– Eu não vou ter filhos, Dona Lourdes.

Já tinha me arrependido antes mesmo dela transformar aquela cara cheia de rugas em um quadro do Munch. Alex me olhou com uma expressão igualmente horrorizada. O problema não era abrir mão dos filhos, o problema era abrir mão dos filhos pra mãe dele. Ainda dá tempo de consertar?

– Quer dizer, eu não pretendo ter filhos de parto normal, Dona Lourdes. Quero dormir e só acordar quando o bebê já estiver limpo, vestido e mamado.

Isso ajudou?

– Quando tive o Alex nem pensei nessa história de cesárea, e olha que o parto dele durou 7 horas! Essa operação é um perigo pra mãe e pro bebê. Deus que me livre, mas hoje eu e meu filho poderíamos nem existir.

– Na atual conjuntura não consigo enxergar isso como algo ruim.

– Quê?

– Nada. Amor, o Buscopan?

Deve existir pelo menos uma centena de piadas sobre sogras. Infelizmente são todas sobre as nossas mães e nenhuma sobre o quanto as mães deles são megeras superprotetoras.

– O almoço está pronto! – disse uma das suadas irmãs que se encarregara de terminar o arroz.

As mulheres se encaminharam pra cozinha. Permaneci sentada.

– Isadora, você não vai colocar a comida do Alex?

Um milhão de versões diferentes da pergunta do por quê eu faria uma coisa daquelas passaram pela minha cabeça, mas o cutucão do Alex veio antes. Os olhos piedosos imploravam que eu relevasse e tentavam me lembrar das inúmeras conversas que tivemos em casa.

– Claro, Dona Lourdes.

Na cozinha, as mulheres, munidas de dois pratos, seguiam em direção ao fogão numa espécie de fila indiana. Existe ordem na subserviência, não pude deixar de notar. Na minha vez Dona Lourdes alertou:

– Vixe, Isadora, Alex não come o caroço do feijão. Você quer que eu pegue o coador?

– Será que ele não prefere um canudinho?

Ela não entendeu a piada. Eu não coei o feijão. Acho que empatamos.

De volta à sala, agora a família se distribuía pelos sofás enquanto a mesa permanecia vazia.

– O problema é dessa porra desses pivetes da Central do Brasil. Uma merda, tinha que passar de madrugada matando todo mundo – o fato de ter sido servido primeiro, dava agora o benefício da fala ao tio mais velho – Mas se Deus quiser em 2018 vai dar Bolsonaro. Dizem até que o Joaquim Barbosa, aquele escurinho que foi juiz, vai ser o vice dele.

– Ai…

– Algum problema, Isadora?

– Nada, seu Augusto, só cólica mesmo.

– Opa! Será que vem um netinho por aí?

A família inteira deu risada. Pra mim soou como porcos no cio.

– Na verdade a cólica é da menstruação e a menstruação é o sinal mais claro de que, pelo menos dessa vez, nenhum caramujo conseguiu se prender nas minhas paredes uterinas. Deus, salve a cólica, Deus, salve a menstruação.

– Isadora, não fala dessas coisas na hora do almoço!

– Por que, Dona Lourdes? Falar de menstruação é nojento, mas falar do Bolsonaro não é?

– Você não gosta do Bolsonaro?

– Não. Mas também não gosto do câncer, talvez eu não seja parâmetro.

– Isadora disse que não quer ter filhos.

– Eu disse que não quero ter filhos agora, Dona Lourdes.

– Mas se não for agora vai ser quando? Quanto mais tarde, mais difícil fica de engravidar.

– Eu só tenho 27 anos.

– Na sua idade eu já tinha dois.

– E olha que maravilha isso fez na vida da senhora.

Alguém teve a ideia de abrir o vinho. No fim do segundo copo eu encontrei o argumento que precisava pra seguir com a discussão.

– O problema é que todo mundo fala que filho é uma maravilha, que é o maior amor do mundo e blá! Mas vamos combinar que dá uma arruinada na vida da gente, né? A gravidez é um inferno não pode dormir de bruços, não pode fumar, não pode beber e dá vontade de ir ao banheiro a cada 15 minutos. Quando nasce ele tortura os pais com choro às duas da manhã. Passa um tempo fofinho até entrar na fase retardada dos 7 anos, é nessa época que eu nem sei como as mães resistem a ideia de dopar as crianças. Depois entra na adolescência rebelde, cospe na cara da gente, pega o carro escondido e manda eu me fuder. Não passa numa pública, eu gasto tubos pagando a Estácio pra só aos 30 ele conseguir se formar em Educação Física e dar aula no turno da noite na Smart Fit. Meus genes e os do Alex não são tão bons, vamos combinar que a gente não vai dar origem a um ser humano fantástico.

– Mas que imaginação fértil, Isadora.

– Eu sou uma pessoa desequilibrada, Cármen.

– Toda mulher deveria ser mãe, Isadora. É a vontade de Deus.

– Olha, Dona Lourdes… Primeiro que tem um caroço de arroz no seu queixo e isso tá me incomodando um pouco. Segundo, que esse negócio de Deus, né…  

– Você não tem religião?

Nessa a velha me pegou. Mas eu e Alex tínhamos ensaiado a resposta várias vezes.

– Fui batizada na igreja católica quando era pequena. Lembro que minha mãe…

– Então você é católica?

– … fez uma daquelas lembrancinhas de imã de geladeira que ninguém quer ganhar…

– Você é católica, Isadora?

– … minha tia Sônia foi madrinha, morreu dois dias depois, coitada. O filho dela…

– ISADORA!

– Eu nem acredito em Deus, Dona Lourdes, como vou ser católica?

Alex não tinha me treinado com três, (ou seriam quatro?) copos de vinho. Desculpa, amor, mas a tua mãe é uma vaca.

– Alex, você sabe que ter religião é muito importante, né?

– Ele sabe, Dona Lourdes, é por isso que a gente tá pensando em entrar pra macumba.

– Macumba???

– Eu poderia falar candomblé, mas a senhora ia entender macumba, então preferi facilitar.

– Alex, vamos dar um pulinho ali no quarto da mamãe por um segundo?

– Posso ir junto?

– Não, Isadora.

Ela pronunciava o “S” do meu nome num sibilar bonito. Pena eu não ser especialista em cobra pra identificar a espécie. Demoraram uns 15 minutos? Sei lá, não estava contando os copos de vinho, que dirá o tempo. Quando ele voltou eu dançava o Arrocha da Penha abraçada numa das sobrinhas de 5 anos. Dei pause no celular e peguei a frase pela metade.

– Mas já ir embora, amor? Eu ainda nem expliquei pra sua mãe o lance da cultura do estupro.

A velha me fuzilava com os olhos vermelhos. Sinal de que tinha preparado o seu tradicional número dramático no quarto.

– Olha, Dona Lourdes, a senhora me perdoe aí qualquer coisa e desculpa também o fato de eu não ficar pra lavar a louça. Eu até lavaria, mas como a gente não tá no século XIX, achei incoerente.

– Que isso, Isadora, eu que te peço desculpas. Alex conversou comigo no quarto. Você por favor releve qualquer incômodo, é que eu estava tão acostumada com a ex dele. A Márcia era um amorzinho.

[Silêncio]

[Mais silêncio]

– Mas a senhora achava a Márcia um amorzinho antes ou depois dela passar gonorreia pro seu filho?

– Quê???

– Gonorreia, Dona Lourdes, aquela doença que incha…

– A Marcinha não fez isso!

– A Márcia fez um aborto, Dona Lourdes, passar gonorréia deve ter sido pinto.

– Meu Deus do Céu…

– Apesar de até hoje eu não saber muito bem como se pega gonorreia transando com mulheres, mas…

– Como assim? Você está dizendo que a Márcia era sapatão?

– Hoje em dia a gente fala “lésbica”, mas era sim. Talvez não em período integral, mas algum couro tinha ali. Acho que isso faz de mim a nora favorita, né Dona Lourdes? Dona Lourdes? Dona Lourdes?

Desmaiou.

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Isadora já sofreu por aqui antes ao topar com um ex (para ler, clique aqui). E, para o nosso divertimento, promete se dar mal outras vezes.