– Vamos lá então, aqui a gente tem Jesus… Tudo bem, Jesus?

– Tudo bem, Cláudio.

– Jesus, preencheu a fichinha, trouxe currículo, perfeito. Você é de Nazaré. De Nazaré pra cá são quantos ônibus?

– Dois ônibus e um metrô.

– Ótimo, faz bilhete único. Jesus, tô vendo aqui que você deixou o nome do pai em branco.

– Achei melhor…

– É, mas tem que preencher. Tem algum problema? Você não conhece seu pai?

– Não, é que na verdade eu tenho dois pais.

– Ah, é um casal homoafetivo? Nossa, que moderno…

– Não, eu também tenho uma mãe.

– Pois é, “Maria”. O que é que ela faz?

– Hoje em dia é mais dona de casa.

– E como ela é?

– Ah, mamãe é cheia de graça.

– Colunista de blog?

– Não…

– Jesus, desculpa insistir, mas a gente realmente precisa do nome do pai pro cadastro. Olha, se você não tiver certeza eu coloco aqui “pai desconhecido​”. É mais comum do que se pensa.

– Não é isso, olha, pode ser José? Põe José. É meu pai de criação.

– Ótimo, José te registrou? Tá no RG?

– Não.

– Aí fica complicado, Jesus.

– É que eu sou filho de Deus.

– Mas filho de Deus todos nós somos, né?

– Mas eu sou filho mesmo. Ele engravidou a minha mãe.

– Deus engravidou a sua mãe?

– Na verdade foi o Espírito Santo.

– Jesus, deixa eu fazer uma pausa que esse histórico familiar, o lugar onde as pessoas cresceram, isso tudo é importante. A sua mãe era casada com José, teve um caso com Deus e engravidou do Espírito Santo?

– É que o senhor não está entendendo muito bem. Mamãe nunca foi promíscua. Se fosse o pessoal rebentava ela na pedra. Minha mãe morreu virgem.

– …

– …

– Jesus, você fez o psicotécnico?

– Fiz, fiz, ontem a tarde.

– Ótimo, depois dou uma olhadinha. Vamos passar pras experiências profissionais? Tô vendo que você ficou um tempinho parado, né?

– É, eu andei sumido.

– Dois mil e dezessete anos…

– Dois mil e dezessete anos…

– E o que você fez nesse período?

– Eu fazia muito bico expulsando demônio na Universal, mas era um trabalho mais de bastidor.

– E antes disso você era carpinteiro, mas deixou o emprego pra fazer mochilão com 12 amigos.

– Não era muito bem mochilão. A gente levava a palavra do Senhor por Jerusalém.

– Testemunha de Jeová?

– Não…

– Um pouco de falta de comprometimento com teu pai, hein Jesus. Te deu o primeiro emprego, confiou em você, cheio de cruz pra entregar e você abandona assim?

– Eu recebi um chamamento de Deus.

– Você deveria valorizar mais José. Pai é quem cria. Mas vamos voltar, aqui em realizações tem uns pontos interessantes. Logo antes dos 18 você transformou água em vinho?

– Isso, numa festa.

– E maconha começou quando? A bebida sempre é porta de entrada pra outras drogas. Bom, também tem uma passagem por peixaria e padaria. “Matemática” como ponto forte. Ainda sabe multiplicar?

– Peixe agora não mais e pão só sem glúten e livre de exploração animal. Virei vegano.

– E essa história de andar sobre as águas?

– Na época foi sucesso, mas hoje em dia stand up paddle virou modinha demais.

– É, e nesse departamento de águas e a gente teve uma péssima experiência com Moisés. Uma qualidade, Jesus.

– Sou dinâmico, consigo estar em vários lugares ao mesmo tempo

– Um defeito?

– Confio demais nas pessoas.

– Sei, mas seria um defeito profissional.

– Às vezes durmo muito. Teve vez que fiquei out três dias direto. O pessoal até achou que eu tinha morrido.

– Tô vendo aqui que você também já escreveu um livro. “Bí-blia”, tô pronunciando certo?

– Isso, mas nesse caso atuei mais como ghost-writer.

– Entendi. Olha, aqui a gente tem o costume de investigar redes sociais também, e eu me surpreendi quando descobri que você não tem Facebook. Algum motivo especial?

– Pois é, mês passado escrevi “vinde a mim as criancinhas”, mas o povo achou meio pedófilo e suspenderam a conta.

– Enganos acontecem… Essas feridinhas na mão que você tem, Jesus, é acidente de trabalho?

– Mais ou menos. Não é grave, já passei Cicatricure, mas não fecha.

– Pode ser diabete, cuida disso. Jesus, a boa notícia é que a gente tem uma vaga temporária, no fim de ano a demanda por gente com o teu perfil cresce muito. Vou entrar em contato e te passar os documentos e você entregar pro Pedro na portaria, ok?

– Ótimo, Cláudio, ótimo. Fico muito feliz em voltar.

– Posso ligar pra esses números aqui?

– Pode, pode. Se por acaso eu não atender você conversa com o Silas, meu empregado. Agora, só não leva muito em conta o que ele diz. O Silas adora falar merda em meu nome.