Alguns anos após o boom das adaptações cinematográficas de distopias, a Netflix aposta em sua própria versão do tema, com Onde Está Segunda? (What Happened to Monday?). O longa, que estreou em agosto na plataforma de streaming, estava na minha lista já há um tempo, mas só consegui assisti-lo recentemente. Achava que seria um filme clichê, sobre um futuro horrível com políticas extremas, com algumas cenas de ação que me entreteriam. Um pouco mais do mesmo. Entretanto, me surpreendi. “Onde Está Segunda?” é muito mais do que isso.

Dirigido por Tommy Wirkola e estrelado pela talentosíssima atriz sueca Noomi Rapace (da série Millennium: Os Homens Que Não Amavam as Mulheres), somos rapidamente apresentados ao universo no filme nos primeiros minutos. Com recortes de matérias jornalísticas, vemos o que aconteceu com o nosso mundo, em um futuro não muito distante. Com o crescimento desenfreado da população, as indústrias alimentícias tiveram cada vez mais que optar por ferramentas artificias para suprimir a grande demanda. Toda essa intervenção humana na natureza acabou por influenciar nos organismos e, como consequência, partos de gêmeos começaram a ser cada vez mais frequentes. Ou seja, a solução acabou por intensificar o problema.

É nesse momento que a Agência de Alocação de Criança (A.A.C), liderada pela fria e calculista Nicolette Cayman (Glenn Close) propõe uma nova resposta para a questão, com a imposição da política de filho único. Os pais que tivessem mais de um filho, deveriam entregar o segundo para a agência, que os congelaria criogenicamente. A criança ficaria adormecida por anos e, somente quando o problema estivesse controlado, acordaria.

Entretanto, quando Karen Settman fica grávida de sete irmãs gêmeas idênticas, a possibilidade de entrar suas filhas ao governo não parece possível. Mas, Settman morre no parto, deixando para o seu pai, Terrence (Willem Dafoe), a missão de cuidar dos bebês. Por serem sete, o avô decide nomeá-las de acordo com os dias da semana: Segunda, Terça, Quarta, Quinta, Sexta, Sábado e Domingo.

Todas as irmãs são interpretadas pela atriz Noomi Rapace.

Com medo de perder suas netas – já que a agência sequestrava todos os irmãos que não eram voluntariamente entregues – Terrence inventa um sistema. Cada irmã poderá sair durante um dia da semana, o dia que leva seu nome. Todas elas serão a mesma pessoa: Karen Settman, em homenagem à mãe. Quando retornar, a irmã que saiu deve contar todos os detalhes do dia para as outras ficarem a par do que está acontecendo na vida de Karen… Ou seja, na vida delas mesmas.

O sistema criado pelo avô dá certo e, durante 30 anos, as irmãs viveram escondidas da A.C.C, trabalhando em uma agência de banco, sem serem descobertas. É quando Segunda, a mais responsável e certinha do grupo, some, deixando todas as outras preocupadas, sem saber ao certo o que fazer. Daí o título extremamente literário. E é esse o mistério do nome que vai pautar o filme: como as Settman vão lidar com menos uma delas e, mais importante, o que aconteceu com Segunda.

A história parece bem clichê (porque é). Mas, a maneira com que é construída faz valer muito a pena. Primeiro, um dos fatores que mais me chamou a atenção é a dinamicidade do filme. Passagens rápidas, com cenas de lutas muito bem feitas, cortadas com alguns flashbacks da criação das irmãs. Você entra na história instantaneamente e não tem muita dificuldade de entender o que está acontecendo, apesar do ritmo acelerado. Outro fator importante é a construção das identidades das sete irmãs que, mesmo sendo idênticas geneticamente, são totalmente opostas quando se trata dos traços de personalidade. Rapidamente vamos entendo melhor quem é quem e porque elas são assim. Entretanto, o que alguns críticos acharam negativo no filme é o panorama geral que o filme dá do psicológico das sete, sem nada muito profundo. Sou obrigada a concordar, mas creio que esse era o propósito da equipe, já que o grande foco é a resolução do mistério central e as cenas de luta, que, volto a dizer, são incríveis. Além disso, a excelente atuação de Rapace dá conta de mostrar a essência das irmãs, mesmo com o pouco de tempo destinado a isso.

No futuro distópico a sociedade não dá conta da superpopulação e a tecnologia invade todos os aspectos da vida humana.

Violento, irônico e criativo, “Onde Está Segunda?” dá uma repaginada nas distopias mais recentes que andamos vendo por aí. Absolutamente adulto, o roteiro é maduro e, até mesmo, pesado em alguns momentos. Como disse, pela dinamicidade das cenas, dificilmente você vai querer tirar os olhos da tela até entender totalmente o que aconteceu. Não posso dizer que o final é surpreendente, mas é profundo, dando toda a emoção e densidade que muitos sentiram falta no desenrolar da trama. Com certeza vale a pena assistir!