Me ligaram. Ou melhor, ligaram-me, já que não se começa frase com pronome oblíquo. Ligaram-me. Na verdade, o problema de meter ênclise logo na entrada é que passa horrores de arrogância. Em contrapartida, “me ligaram” conversa com a informalidade e se aproxima do analfabetismo funcional. Me ligaram. É. Mesmo dadas todas as justificativas passar o olho em cima ainda ofende. Enfim. Complicado. Entraram em contato comigo.

Era uma ligação internacional. Nunca recebi uma ligação internacional, mas já tive várias do Nordeste, onde aparentemente fica o setor de crédito do meu cartão. Era de Genebra, na Suíça. Não sei qual é o fuso da Suíça, por isso preferi ficar calado. Quando não é para dar bom dia, boa tarde ou boa noite, sempre prefiro ficar calado. “Seu fulano?”, ele disse. “Oi”, eu disse. Não vou aqui revelar meu nome, pode gerar assédio. Ele disse “seu fulano”, eu disse “oi”. Ele disse, “aqui é de Genebra, na Suíça”, eu fiquei calado porque, como disse, não sei o fuso de Genebra, na Suíça. Eu poderia dizer que meu nome é Raul e pregar do lado um asterisco puxando para um outro asterisco lá embaixo falando que é nome fictício. Mas teve uma vez que lia uma matéria enorme numa revista quando topei com um asterisco que só se assumia lá no fim das 17 páginas. Desgastante. Fiquei muito chateado naquele dia. “É de Genebra, na Suíça”. Eu disse “ahn?”. Não, mentira. Não disse nada. Não sei o fuso da Suíça. “Suíça. É que estou ligando, pois o senhor ganhou o prêmio de melhor pessoa do mundo”.

É até capaz que muita gente leia com descrença, já que nunca ouviu falar no prêmio de melhor pessoa do mundo. Outros dirão até que inventei. O que é normal, já que hoje em dia as pessoas são muito ignorantes, principalmente por aqui. “Nós vamos mandar a passagem para sua casa, a premiação é no dia 12”. Não me surpreendi com o título. Também não fiquei revoltado por ele não ter vindo antes. Fiquei médio. Por aqui a gente fica muito médio ultimamente. Nos últimos dias ando encucado tentando apenas descobrir em que momento o júri teve a certeza de que eu merecia ganhar.

Pode ter sido em maio, naquele dia no metrô em que em vez de empurrar a senhora que parou para mexer na bolsa em frente a escada rolante, eu preferi pedir licença. Ela teria se espatifado lá embaixo e, pela idade, provavelmente nunca mais levantaria. Jurados com certeza levam em conta a idade.

Ou talvez tenham considerado o conjunto da obra. Já andei diversas vezes em outros transportes públicos onde as pessoas falavam gritando e mesmo assim nunca desferi um soco na garganta delas. Falando em transportes, também contribuí muito para a harmonia deles, em virtude de ainda não ter passado o meu fone de ouvido em volta do pescoço daqueles que utilizam o alto falante em público. Certa feita, também viajei de trem ao lado de um pastor que impunha a sua fé aos berros e em nenhum daqueles 30 minutos, eu enfiei o meu indicador no globo ocular direito dele.

Não sei a quanto tempo eles me acompanham. Pretendo ler as regras no avião. Se for há mais de 10 anos, periga coincidir com a época em que desisti de dirigir depois que aquele senhor me xingou no trânsito. Ele me fechou e ainda berrou um CBO que, salvo engano, a minha progenitora não exerceu em vida. Eu poderia ter perseguido o seu humilde Uno e o feito voar da Rio-Niterói, mas preferi seguir para casa e vender o automóvel. Questões de trânsito sempre estão em voga.

Falando em moda, também é possível que tenha sido pela minha contribuição ao meio ambiente. Nunca arranquei a cabeça de nenhum Pinscher, mesmo quando eles latiam incessantemente. E olha que eu poderia. São cachorros frágeis, basta segurar nas extremidades e puxar devagar.

Se for pelo social também fiz muito. Tenho inúmeras facas em minha casa e mesmo assim nunca levei nenhuma delas comigo ao ser atendido por um funcionário público. Falando em prataria, certa vez trabalhei em um lugar onde tinha que compartilhar a hora do almoço com outras pessoas. Era uma gente que defendia medidas de segurança pública pouco ortodoxas, chegando um dia, inclusive, a sugerir o lançamento de “uma bomba na favela”. Nessa ocasião, não vomitei em nenhum deles.

Uma outra possibilidade são as crianças. Vi em um programa certa vez que em Genebra, na Suíça, as pessoas gostam muito de crianças. Eles devem ter se surpreendido com o fato de eu já ter frequentado inúmeras festas infantis, locais em que ao mesmo tempo os impúberes correm, gritam, caem, choram, agridem e riem. Foram várias as oportunidades de esticar minha perna e ver uma das crianças perder para sempre os molares principais.

É neste momento que grande parcela fala “mas teve gente que fez mais, que ajudou pobre, que construiu orfanato, que salvou baleia”. Sim, concordo. Tem muita gente que faz muita coisa, mas poucos são aqueles que não fazem tanto.

No meu caso, contribuo mais não fazendo do que fazendo. Não precisa agradecer.

Vou subir ao púlpito e dizer que realmente a minha vida é uma conquista. Consegui chegar até aqui sem matar ninguém. Nem a mim mesmo.