“O Rei do Show” (The Greatest Showman) tem a melhor data de estreia possível aqui no Brasil. Isso porque a mensagem presente no filme dialoga diretamente com essa época de reflexão e sensibilidade aguçada das festas de fim de ano. O filme é um musical que se destaca por celebrar o nascimento do show business e transmitir mensagens positivas como a autoaceitação, a crença em nossos sonhos e o respeito às diferenças, justamente o que necessitamos em tempos tão intolerantes. Além disso, ele tem bela fotografia, ótimas atuações e trilha sonora que não sai da cabeça de quem assiste.   

Estrelado por Hugh Jackman, o musical se inspira na trajetória de P.T. Barnum, uma figura controversa da história do entretenimento norte-americano. Lembrado como o “príncipe das falcatruas”, Barnum é de origem humilde e desafia as barreiras sociais ao se casar com Charity (Michelle Williams), a filha do patrão, e por ser ambicioso ao querer e conseguir ascender economicamente. Após ser demitido e fracassar em seu primeiro empreendimento, ele cria um grande show estrelado por bizarrices e pessoas rejeitadas pela sociedade. Nesse grande show, ele aumenta alguns detalhes com a finalidade de entreter o público ainda mais, o que gera críticas ao espetáculo.

Hugh Jackman interpreta P.T. Barnum

Apesar de previsível, a narrativa é bem construída pelos roteiristas Bill Condon e Jenny Bicks. Eles usam elipses que proporcionam saltos temporais interessantes, dando certa dinâmica a história já conhecida por parte do público. Já o diretor de primeira viagem Michael Gracey se sai bem apesar de dar um tom romantizado em torno da história de Barnun, que até pode ser considerado necessário para dar uma suavizada em algumas características do personagem, fazer a magia do filme acontecer e atingir o grande público já que é um musical acessível às massas. Por esse motivo, o excesso de “good vibes” se justifica mesmo que alguns possam achar meloso demais, o que não é.

A trilha sonora é assinada por Justin Paul e Benj Pasek, os responsáveis também pelo grande sucesso de “La La Land”, e eles acertaram mais uma vez. “This is Me”, música cantada por Keala Settle, concorre ao Globo de Ouro na categoria “Melhor Música Original”. “The Greatest Show”, “A Million Dreams” e “Never Enough” são outras canções que se destacam no musical, sendo apenas essa última dublada pela cantora Loren Allred, o que é justificável, pois a personagem Rebecca Ferguson (Jenny Lind) é considerada a melhor cantora da Europa e precisava de uma voz que fizesse o P.T. Barnum se encantar.

Zac Efron e Zendaya

Hugh Jackmann é o grande destaque do filme e também está indicado ao Globo de Ouro na categoria “Melhor Ator em Filme Musical ou Comédia”. Com a história do filme sendo contada através dos sonhos do seu personagem, isso não poderia ser diferente. O casal clichê interpretado por Zac Efron e Zendaya também se destaca pela forte química entre os atores, que fica evidente durante a apresentação da música “Rewrite The Stars”. A narrativa deles apresenta aquele casal clássico que não pode ficar junto devido ao preconceito da sociedade e da família do mocinho. Ele é rico enquanto a mocinha é uma circense negra. Ele procura uma liberdade de escolhas enquanto ela enfrenta o racismo, abordado de forma rasa no filme.

Quem também surpreende positivamente é a atriz e cantora Keala Settle, quem interpreta a mulher barbada e canta o hino empoderado “This is Me” já mencionado antes. Keala já realizou trabalhos em famosos musicais da Brodway como “Hairspray” e “Waitress”. Ela e os outros integrantes do circo representam a ideia de que precisamos aceitar a nós mesmos porque todos somos diferentes e isso é um fator positivo em nossas vidas. Apesar dessa importante crítica social tão necessária até os dias atuais, esses personagens são limitados por serem coadjuvantes. Os roteiristas e o diretor poderiam ter explorado ainda mais esses personagens como forma de celebrar as diferenças de gênero, etnia, tamanho e formas, evidenciando ainda mais que todos possuem particularidades.

Keala Settle e elenco

A grande mensagem que fica e emociona o espectador é a de celebração das diferenças e que podemos sim conviver harmoniosamente porque só estamos bem quando o outro está bem. Ter um filme nas telonas abordando isso é muito importante, principalmente na época em que vivemos hoje. No Brasil, a diversidade nunca esteve tão em voga, o que é ótimo, mas em contrapartida, atitudes intolerantes e preconceituosas também só crescem com um conservadorismo hipócrita que aflora na sociedade. “O Rei do Show” é um musical inspirado na biografia de P.T. Barnum que se passa no século XIX, mas que é super atual seja por sua narrativa, pelas músicas com cara de hit ou abordagem social.

Em “O Rei do Show”, os personagens cantam e dançam a todo o momento, afinal é um musical, então, se você não é muito fã do estilo, realmente, o filme protagonizado por Jackman não vai te agradar. No entanto, se você é fã de musicais e quer sair sorrindo e cantando e dançando da sala de cinema, “O Rei do Show” é um filme muito indicado. Ele vai te entreter do início ao fim, além de despertar o sentimento de esperança em um mundo melhor.

* A trilha sonora completa já está disponível no Spotify e no YouTube.