Justiça seja feita eu já estava bem agitada antes de tomar o LSD.

Era a porra da lingerie amarela. Algum idiota inventou a regra muito sábia de que não se pode provar roupa íntima. Quando cheguei em casa e experimentei a porra da lingerie amarela tive a certeza de que eu precisaria ganhar todo o dinheiro do mundo pra alguém me comer no Ano Novo. Quem chama o bege de brochante ainda não conheceu o amarelo.

– Ano que vem sou eu que vou comer os caras, Mônica. Que nem naquele livro do João Ubaldo Ribeiro com a Fernanda Torres.

– Bebe água, Isadora.

E agora? O vermelho pra atrair amor me deixa gorda, o verde da esperança tem umas manchas desde que comprei aquela caixa de Surf e o branco…

– Na boa, tô pouco me fudendo pra paz.

– Bebe água, Isadora.

– Quantos ela tomou?

Um. Eu tomei um comprimido. Vou jogar na conta da dislexia que desde os oito faz eu confundir direita e esquerda. O Rogério disse onde estava o remédio de dor de cabeça, eu me confundi e ok. Vou de amarelo.

– Você não quer tentar vomitar mais, Isadora?

– A Tati Bernardi nunca vomita, Mônica. Tô ótima, vou pegar a bolsa. Chama o Uber. Não, chama o 99 que agora não tem mais taxista pra puxar assunto. Mas mesmo assim tem engarrafamento na praia. Vamos andando?

Caroço de romã é engraçado. São sete. A romã passa o ano todo tão esquecida quanto o “próspero”, mas no Ano Novo ela aparece custando 28 o quilo no Zona Sul.

– A romã do Mundial é péssima, Rogério. Se for pra começar o ano comendo a romã do Mundial acho que eu morro em janeiro.

Enquanto ele falava alguma coisa colorida, da janela do Cabify eu olhei pra perto da orla e tive a certeza de que a noite estava linda pra ir pedalando com a bicicleta do Itaú.

– A gente se encontra no Posto 11, galera.

Eles ainda berraram “Isadora” quando pulei do carro, mas eu havia acabado de decidir que agora me chamava Tiffany. Só quando cheguei perto das laranjinhas que me ocorreu que nunca tive conta no Itaú.

– Elas nem desbloqueiam quando a gente faz o gesto do “i” no ar.

– Vamos correndo, Tiffany!

– Vamos!

Corri do Aterro até o Posto 8 no que me pareceram 2 minutos. Só parei porque tinha um grupo tocando violão perto de um banheiro químico. Sempre odiei o cara do violão. Cantei abraçada neles Cássia Eller, Nando Reis, Legião e Jorge Vercillo. Quando embicaram em Armandinho, até eu, drogada, atingi o limite. Corri o que faltava pro ponto de encontro só que dessa vez de costas.

– Nossa, você está pálida, moça.

– Você é o Taumaturgo Ferreira?

– Não. Quer um doce?

Demorei três dias pra descobrir que o doce era outro LSD. Sempre sofri de glicose baixa.

POU! PA RA PA PA RA! POU! POU!

Caralho de onde tiram tantos fogos no Ano Novo? O que me conforta é que alguém sempre perde a mão.

POU! PA RA PA PA RA! BUM! BUM!

Quando a Mônica me encontrou eu fazia anjo de neve na areia. Ela estava com outros amigos.

– Dá Coca Cola pra ela.

– Compra um Cepacol.

– Sal.

– Água na nuca?

– Limão.

– Massageia os pés.

– Chocolate.

– Maconha.

A ideia de combater o efeito de uma droga com outra me pareceu tão genial que não resisti. Era como usar o câncer de esôfago pra tratar o câncer de próstata.

– Me dá.

Ali eu realmente transcendi. Saía do meu corpo e voltava em suaves prestações, como uma TV tentando sintonizar.

– Por que as pessoas não desmontam a árvore de Natal depois que passa o Natal?

– Porque o Dia de Reis…

– É como ir pra esquina depois de um ano esperar o pai que foi comprar cigarro.

Balançava a cabeça lentamente pra que as pessoas achassem que eu acompanhava a música e não que tentava desesperadamente evitar vomitar no ombro da garota de top.

– Bonita essa música.

– Que música, Isadora?

Ali na ponta estava aquela repórter da Globo pronta pra entrar ao vivo. Era aquela mais loirinha, do RJ, a.. a… caralho eu deveria ter parado no Ice, o meu limite era o Ice.

FIIIIIIIIIII BUM BUM BUM PA RA RA RA POU POU!

– Puta que pariu, minha cachorra!

– O que tem sua cachorra, Isadora?

– Tem medo de fogos.

– Sua cachorra morreu há dois anos, amiga.

Com certeza foi de fogos. Dercy morria de medo de fogos. De onde tiram tantos fogos no Ano Novo? O que me consola é que alguém sempre perde…

CINCO, QUATRO, TRÊS, DOIS.

Perdi a primeira parte da regressiva, mas, cá entre nós, metade da praia tá em uma velocidade, um terço em outra, dois quartos com o número do telão e o microfone não acompanha nenhum deles. Ao todo nove sextos.

UM!

PA RA PA PA POU!

Feliz Ano Novo! Abraço, abraço, beijo, beijo. Oi, amor. Feliz Ano Novo. Abraço. Emoji no Whatsapp. Grupo vibrando. Abraço, abraço. Eu te conheço? Gole na sidra. É Cereser? Não é Cereser. É Cereser. Abraço, beijo na boca, abraço, abraço. Não, não é. Gole. Gole. Comprimido. Renata Capucci. Abraço, beijo.

– Esse ano a prefeitura prometeu 28 minutos de queima de fogos.

Sério, quem precisa de tanto tempo de queima de fogos? O que você espera que surja depois dos sete?

– Tão tentando derrubar São Pedro, com certeza.

– Quem é você?

– Júlio.

– Você comeria alguém de lingerie amarela?

– Melhor que bege.

Ano que vem prometo emagrecer, juntar dinheiro, viajar, visitar mais meus pais, ser uma pessoa melhor, ajudar pobre, apadrinhar uma criança, doar pro Médicos sem Fronteiras, terminar Friends, arranjar um namorado, dar o cu, fazer uma tatuagem, comer na Fogo de Chão, não ligar pro Bruno, começar uma faculdade.

– Calma, Júlio, tira a língua da minha orelha que eu preciso pular as sete ondinhas.

Uma, duas, três, mar, mar, mar, mar aberto. Puta que pariu, como eu vim parar no meio da água? Afoga, afoga, afoga. Respira, respira. Calma, Isadora. Calma. Puxado manter a calma tomando caixote de dois metros de profundidade.

– Taumaturgooooo, Taumaturgooooo.

Espera, eu posso nadar. Eu recebo o espírito renovado da Rebeca Gusmão. Nada, nada, nada. Braçadas, crawl, costas, peito, borboleta. A Rebeca Gusmão ainda é viva. Merda! Não conheço nenhuma outra nadadora. Afoga, afoga, afoga. O Ice era o meu limite. Balsa.

Balsa?

Tô salva, meu Deus, tô salva. Eles estavam certos, beber tanta água já me faz voltar a mim. Tô salva, o moço me pegou, o moço da balsa…

– Moço, brigada, o senhor salvou minha vida.

– Fica tranquila, eu…

PA RA PA PA POU! FIIIIIIIIIII TAM TAM TAM BUM POU! FIIIIIIIIIII TA TA TA PA RA PA RA POU POU POOOOOU! BUM! BUM BUUUUM!

Era uma balsa de fogos.

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Isadora foi a personagem que mais trabalhou nesse tal 2017. Lá em agosto ela topou com um ex (clique aqui) e depois com a sogra (aqui). A sorte é que a desgraça dela é a nossa alegria, porque olha…