Sim, meus nobres leitores, o país se emocionou quando no raiar de 2014 o autor do Universo escrevia os primeiros capítulos da Lava-Jato. Com personagens emblemáticos, a trama parecia uma produção de Shonda Rhimes e despertou mais paixões do que a performance La Betê do MAM. Agora, quase quatro anos depois, a novela de exibição nacional só seria mais chata se tivesse uma trilha composta pelos Tribalistas.

Se Camelo reunisse a quadrilha pra cantar a música de abertura então…

Preocupado com essa imensa barriga da biodramaturgia tupiniquim, recorri aos arquivos de inúmeras telenovelas e busquei nove estratégias capazes de dar um plot twist na reta final da Operação.

Um “quem matou?” com o Juiz Moro.

Essa é urgente. Lançado por Vale Tudo e depois empregado em Celebridade, A regra do Jogo e O Rebu, o “quem matou?” é um recurso com garantia de sucesso. Capaz de prender a audiência por semanas, o mistério atiça a curiosidade e provoca um debate nacional. Para recuperar o prestígio de outrora, Lava-Jato teria que lançar mão de uma medida ousada, a morte de seu maior protagonista.

[Sede da República de Curitiba, interior, noite]

Cansado de mais um dia de embates, Sérgio Moro coloca a capa na cadeira e começa a retirar da arma seus cartuchos do Código de Processo Penal.

[Barulho de porta abrindo]

Moro (de costas para a porta):

– Deltan, você não tem ideia do que o Vaccari disse na audiência hoje. O infeliz afirmou na minha cara que o meu objetivo não é combater os malfeitores e que estou produzindo no Brasil uma Mãos Limpas. Nessa hora tive até que guardar o rascunho da coluna na IstoÉ! e dar uma trava nele. Olha isso.

(Moro se vira)

– Deltan, você fez bife?

(A sala está vazia)

– Deltan, Deltan?

(Vai andando até o banheiro, vê um vulto)

– Deltan? Deltan brincalhão, eu estou te vendo atrás da cortina.

(O vulto se move)

– Oh! Você!?!?

(Uma mão com luva preta surge e atira duas vezes contra Moro, que cai morto em um prospecto do MBL).

Uma trama rural

Desde o Rei do Gado as novelas deixam claro os benefícios trazidos por um núcleo caipira. Com uma trama densa e urbana, Lava-Jato precisa migrar para uma das humildes fazendas da família Batista. Nesse núcleo, através de uma linguagem simplória e muita inocência, Joesley e Wesley, irmãos humildes que sonhavam com o sucesso, se apaixonam pela mesma mulher: a bela Ticiana, estudante que veio passar férias no interior. Neta de Genoino, magnata fazendeiro da região, Ticiana também se apaixona por Joesley, mas seu avô é contra, já que as famílias eram rivais do passado. Magoado por ter sido preterido, e interessado numa proposta de Genoino, Wesley trai o irmão e entrega à Ticiana uma gravação manipulada. Humilhado, Joesley finge a própria morte e volta anos depois rico e poderoso ao interior. Ao regressar, uma surpresa: Wesley casou com Ticiana e cria o filho que na verdade é dele. Eita!

A instalação de um núcleo cômico

Além de ajudar a emplacar bordões para a classe C, o núcleo de humor de uma novela serve para dar um alívio cômico à trama. Com um currículo composto por Uga Uga, Kubanacan e Pé na Jaca, Carlos Lombardi seria a pessoa ideal para escrever falas que ficariam perfeitas nas bocas de Ricardo Saud e Geddel Vieira Lima. Saud, o espertalhão atrapalhado e cheio de vícios de linguagem, tenta dar um golpe no hilário Geddel, que acaba de ganhar 51 milhões na loteria e planeja gastar tudo em rosquinhas. Com esse personagem, Lava-Jato poderia até mesmo trazer a gordofobia como merchandising social. O sucesso seria tanto que após o fim os dois certamente emplacariam  um spin off na Globo Play.

Um reforço no elenco feminino

Como Bibi Perigosa acabou de ensinar, quando carismáticas, personagens femininas levam novelas inteiras nas costas.  Lava-Jato é uma trama extremamente machista que, após o impeachment, renegou ao segundo escalão uma das únicas mulheres do núcleo principal. Para equilibrar as coisas, Dilma poderia voltar ao centro da história quando a polícia encontrasse em sua casa a arma utilizada para matar Moro. Na verdade, como sempre, a mocinha é inocente e tudo não passa de uma armação de Gleisi, sua falsa amiga. Apaixonada por Lula, a senadora empurra seu marido Paulo Bernardo da escada e ainda tenta dar um golpe da barriga no ex-presidente. Com a iminência de ser presa por um crime que não cometeu, Dilma perde a memória após sofrer um capotamento de bicicleta.

A volta por cima do protagonista

Em Chocolate com Pimenta de Walcyr Carrasco, Aninha era uma jovem pobre e inocente que se apaixonava pelo Murilo Benício e era humilhada por toda uma cidade. Anos depois, ela voltava rica e poderosíssima como a dona da fábrica de chocolates. A mocinha tinha uma única missão: se vingar de todos aqueles que dela tripudiaram.

Através do relato acima é incrível observar o quanto a trama de Aninha é parecida com a de Reinaldo Azevedo, o Pulitzer brasileiro ainda não reconhecido. Todo poderoso de Veja, Reinaldinho, após ter um tête-à-tête com a desprestigiada família Neves vazado, perdeu quase que inteiramente o glamour e foi escorraçado da revista. Assim como Nina, de Avenida Brasil, Reinaldo foi parar em um lixão, o telejornal noturno da RedeTV!. Carente de personagens polêmicos, é essencial que Lava-Jato resgate o colunista através de um casamento com Amilcare Dallevo, que se separa de Dani Albuquerque ao descobrir que esta lhe traía com Mick Jagger. Abalado, Amilcare casa com o amigo Reinaldo (o que também colocaria um tempero LGBT na novela), mas morre na lua de mel. Único herdeiro de uma TV quase tão grande quanto a Gazeta, Reinaldo volta à Veja, agora como dono, disposto a se vingar de todos o que lhe humilharam. Sua sede de justiça, atinge até mesmo Fachin que perde a toga e o bigode. Como o seu coração é quase tão grande quanto a sua educação, Azevedo acaba por perdoar seus inimigos e faz as pazes até com Lula. No fim, casa com Andrea Neves e vai morar no aeroporto de Cláudio, em Minas Gerais.

Uma explosão

Novela boa explode pelo menos um barco em algum momento. Em 1998, Gilberto Braga resolveu o excesso de personagens de Torre de Babel mandando meia centena de coadjuvantes pro espaço. Lava-Jato precisa seguir a mesma receita. Já chegamos em 2018 e quem se lembra de Paulo Roberto Costa? Protagonista da primeira temporada, hoje ele anda mais apagadinho que a Meredith de Grey’s Anatomy. O ideal seria juntar todos os personagens que dão barriga na história na próxima festa de aniversário do Moreno e explodir tudo com C4. Numa só tacada eliminamos Lúcio Funaro, Rui Falcão, Marcelo Odebrecht, Sérgio Machado, Delcídio do Amaral, Fernando Baiano, João Santana e Mônica Moura. Dirigida por Jorginho Fernando, a cena daria pico de audiência.

A redenção do vilão

O vilão faz vilania a novela toda, mas no terço final começa a se arrepender e acaba o último capítulo ajudando o mocinho e perdoado pelo tribunal do público. Recurso funcional apenas nas mãos de autores hábeis, caberia muito na trama de Eduardo Cunha. Depois de uma experiência de quase morte, Cunha se daria conta do quanto errou e se arrependeria de seus crimes. Com remorso, assumiria até mesmo o assassinato de Sérgio Moro só pra conseguir livrar Dilminha da cadeia. Ainda no seu caminho de redenção, diria que sim, foi golpe, e no último capítulo devolveria o mandato de presidente à mocinha. No fim, lançaria seu livro e entregaria o primeiro exemplar à Fabiana Escobar.

Lula Donatela

João Emanuel Carneiro debutou no horário nobre com a envolvente A Favorita. Focada na vida de Flora e Donatela, a trama desafiava o telespectador a descobrir quem era mocinha e quem era vilã. Seria a ex-presidiária Flora inocente e vítima de uma armação de Donatela? O dilema foi tanto que o Governo Federal chegou a abolir o horário de verão só pra que todo o Brasil pudesse se emocionar ao mesmo tempo. Falando em Governo Federal, depois de dar todos os indícios de que Lula é culpado, Lava-Jato precisa revelar a verdade ao país e mostrar ao telespectador que na verdade o ex-presidente foi tão injustiçado quanto Donatela.

O sítio em Atibaia, o depósito, o apartamento do Guarujá e até a piscina do Congresso, na verdade eram uma armação do seu gêmeo mal, que sequestrara o Lula verdadeiro no fim de 2010 e só pra tripudiar ainda escolhera Dilma como sucessora. Depois de tanto sofrimento, o ex-presidente teria o tão merecido descanso e iria fazer palestras no exterior dando uma banana pra elite que não suporta que ele tenha tirado 36 milhões da miséria.

Um sequestro, um casamento, uma gravidez e um final feliz

Novela boa sequestra mocinha no penúltimo capítulo, mata vilão, coloca gravidez, e escreve “fim” enquanto os protagonistas caminham por um campo verde. Com tantas temporadas, Lava-Jato acabaria colocando lágrimas até nos olhos do William Waack, se ele ainda fosse vivo. Ao saber que a polícia está prestes a descobrir que ele é o verdadeiro assassino, Gilmar Mendes sequestra Dilma e a mantém amarrada dentro da cuia que fica pra cima em Brasília. Apaixonados, Lula e Zé Dirceu correm para resgatar a amada. Numa luta corporal com o ministro, Zé entra na frente do tiro que iria atingir Dilma, e Lula empurra Mendes que morre pisoteado numa passeata da CUT. Ao ver Dirceu caído, Dilma recupera a memória e acaba escolhendo ele como companheiro, pondo fim ao triângulo que movimentou o Brasil nos últimos anos. Lula termina com Vanessa Grazziotin, os quatro se casam em uma cerimônia coletiva, engravidam de gêmeos e vivem felizes para sempre numa propaganda do PT.

Agora sim, fim.