Que Stranger Things é um sucesso desde julho do ano passado, quando foi lançada, todo mundo já sabe. A série, que já foi pauta aqui no Teoremas, entrou para o catálogo da Netflix sem tanto alarde e ganhou o coração de milhares de pessoas ao redor do mundo. Com direção e roteiro de Matt e Ross Duffer, a série apresenta um terror ambientado nos anos 80 e é protagonizada, na maior parte do tempo, por crianças. Os ‘Irmãos Duffer’ quando começaram a desenvolve-la já tinham em seu currículo a direção e roteiro do filme Hidden e o roteiro da série Wayard Pines, ambas produções de terror.

Will Byers (Noah Schnapp), Mike Wheeler (Finn Wolfhard), Lucas Sinclair (Caled McLaughlin) e Dustin Henderson (Gaten Matarazzo) moram na cidade de Hawkins e são amigos desde sempre. Tudo está indo bem na vida dos garotos ‘nerds’ e viciados em jogos de RPG, até que, voltando para casa, Will some misteriosamente deixando seus amigos e sua mãe, Joyce Byers (Winona Ryder), sem nenhuma ideia do seu paradeiro. Tudo levava a acreditar que Will tinha fugido de casa e até já estivesse morto, mas quando Joyce usa luzes de natal para manter contato com o seu filho fica claro que a criança ainda está viva.

O Laboratório de Hawkins, lugar com muito protagonismo na série, é aonde acontece a primeira cena. Vemos um cientista correndo para dentro do elevador e se escondendo de algo, mas não sabemos o que é e o que essa cena representa na série até o desaparecimento de Will. Outro aspecto importante, que enriquece o roteiro, é a presença de pistas sobre a possível falha cometida pelo laboratório. Quando vemos no noticiário e na própria conversa dos personagens a menção a falta de luz percebemos que o problema está se alastrando pela pequena cidade. Com o sumiço de Will, a delegacia que, até então, não recebia chamado para resolver nenhum crime expressivo é surpreendida pelo desaparecimento. Hopper (David Harbour), o xerife da cidade, fica responsável por procurar pistas que levem o grupo de busca até Will.

Temos, nesse momento, uma separação entre crianças e adultos. Quando Mike, Lucas e Dustin são proibidos de sair para ajudar na busca por Will, eles decidem criar sua própria expedição. Os três saem seguindo pistas que acham relevantes e acabam encontrando Eleven (Millie Bobby Brown), que está usando uma camiseta larga e parece perdida. Essa cena encerra o primeiro episódio da série, que é marcado pela presença de muito suspense e criação de mistério e surpresa, por parte dos roteiristas, já que eles não revelam quase nada ao espectador.

O segundo episódio inicia-se na casa de Mike. Ainda assustados com a aparição da Eleven, mas tocados pela condição da menina, que não consegue sequer falar, eles decidem abriga-la por uma noite, com a promessa de contar para os pais, na manhã seguinte, sobre a presença da garota. Isso não ocorre, em vez disso, nos deparamos com o início da construção de uma relação de amizade entre Mike e Eleven. Também temos, nesse episódio a revelação de que El, ‘morava’ no laboratório e era alvo de experimentos. Um flashback revela os poderes de Eleven e sua trajetória desde o momento da fuga até o encontro com os garotos.

Um aspecto muito importante na série é a trilha sonora. Os personagens de Will e Jonatahn Byers criam uma relação através da música e, durante uma sequência do segundo episódio, a música ‘Should I stay or Should I go’ traz lembranças do irmão para o personagem. A criação de uma música exclusiva para a abertura e uma identidade auditiva para a série abre espaço para a implementação de elementos nos anos 80. Kyle Dixon e Michael Stein foram os responsáveis por criar essa identidade sombria que, segundo os diretores, foi necessária para afastar o filme das obras de Stephen Spilberg (referência para os diretores). A criação desse cenário amedrontador explicita que o público alvo da série não são crianças.

A descoberta, para Joyce, de que seu filho ainda está vivo acontece no terceiro episódio. É importante ressaltar que neste episódio Tod Campbell foi escolhido para atuar como diretor de fotografia, quando nos outros dois episódios esse papel tinha ficado a encargo do renomado Tim Ives. Essa mudança nos leva a crer na importância da fotografia e, sobretudo, na importância da luz para o episódio. Para os que já assistiram a série é fácil identificar a famosa parede que servia de código para as conversas de Joyce e Will. Fica mais fácil ainda reconhecer o que uma casa, cheia de luz de natal de diversos tons poderia representar para uma série que, a todo momento, se afirma como série de terror. Essa é uma das brincadeiras que mais me agradam em Stranger Things: a relação dos personagens se dá de forma leve, os cenários se apresentam diferente do que pensamos para uma típica história de terror, a escolha das roupas dos personagens, tudo isso conta para criar essa relação tão tênue entre o que seria um clichê e o que realmente foi Stranger Things.

É também no terceiro episódio que Eleven revela aos meninos saber o paradeiro de Will. Mais uma vez, os três (agora quatro, com a El) saem seguindo as pistas que a menina dá e chegam aonde não esperavam. O terceiro episódio se encerra com a aparição do suposto corpo de Will sendo achado no fundo de um lago. É claro que, para o público, o suspense não foi mantido por muito tempo já que o quarto episódio já estava disponível da plataforma, mas terminar o episódio desta forma cria a sensação de surpresa para os expectadores. Após essa descoberta, o possível encerramento da ajuda policial e a luta interna vivida por Joyce, a série ganha um novo suspense. Os contatos realizados pelo Will, que garantem ao público e a sua mãe a sobrevivência dele carregam a trama pelos episódios seguintes. Entretanto, a investigação também continua para as crianças. Com a ajuda de Eleven, os três garotos descobrem a existência de um ‘mundo invertido’.

O sumiço de Barb também é importante para a construção do final da história. Nancy decide ir ao ‘mundo invertido’ procurar por ela a amiga. Essa “viagem” feita pelos personagens também funciona para mostrar ao público o ‘mundo invertido’ e como (e porque) ele começou a interferir no ‘mundo real’.  No último episódio da série Nancy retorna ao ‘mundo invertido’, dessa vez acompanhada por Jonathan para procurar por Will, seguindo as pistas que ele passou para a mãe. O retorno de Will causa comoção entre os personagens, mas também é marcado pelo desaparecimento da Eleven. A temporada se encerra deixando um gancho para a próxima, deixando claro que Will está muito mais conectado com o ‘mundo invertido’ do que acreditamos. Não é difícil de entender o sucesso de Stranger Things e o porquê dela ter sido tão premiada. A série trouxe um novo conceito de terror e deu certo.