Elas são de Curitiba e já foram destaque no TdeB em outras oportunidades.* Nesse último ano, elas se apresentaram em festivais como Vento Festival e WebFestValda 2017, além de shows em palcos importantes como o Ópera de Arame. Amanda Pacífico (voz), Cacau de Sá (voz), Caro Pisco (bateria), Fer Koppe (violoncelo) e Naíra Debértolis (baixo) levam a bandeira do empoderamento e protagonismo feminino por onde passam. Na ultima sexta (12), elas se apresentaram no Circo Voador para abrir o show da Francisco, el Hombre com participação de As Bahias e a Cozinha Mineira, Clarice Falcão e bloco Calor da Rua. “Um timaço!”, como disse Naíra durante a entrevista horas antes do show. Segundo Caro, elas estavam ansiosas, mas eu te pergunto: quem não estava? O público, sem dúvida, sim. Mesmo com pouco tempo de estrada, elas apresentam um show autoral contundente e de arrepiar do início ao fim.

Mulamba no WebFestValda 2017. (Foto: Jéssica Riquena)

Em julho passado, elas lançaram o clipe da música “Mulamba”, que possui quase 300 mil visualizações no YouTube e sintetiza bem a mensagem que a banda quer passar. No vídeo, a atriz e bailarina Nayara Santos representa a persona Mulamba. Mas quem é essa mulher?

“A nossa heroína vem dos escombros, vem do lixo. Ela é a mulher que ou não é vista, ou é objetificada, ou é anulada. Essa mulher que não serve. Essa mulher que não é entendida e não entende essa sociedade como está. Para mim, nasce Mulamba aí, essa buceta que não sabe que é apoteótica, mas é. Mulamba é o poder do sagrado feminino que estava na valeta, que sempre esteve ali estruturando tudo, mas que não era citada. […] É a nossa guerreira! Eu a imagino até num quadrinho, sabia?”, revela Cacau.

Para Amanda, é um clipe que dá voz a todas as mulheres, que fala de sororidade. “A gente fez um clipe com mulheres reais para debater sobre nossas inquietações e problemas diários. Tinha criança, trans, negra, dona de casa, nós. No final, essa Mulamba, a personagem central, aparecia como se fosse a personificação das dores de cada uma das mulheres que estavam ali.”

Uma semana após os protestos no Globo de Ouro contra os assédios sofridos pelas mulheres diariamente, é impossível não entrar nesse assunto. Em pauta, os discursos que, infelizmente, ainda corroboram com essa situação de violência. Logo após a premiação, a atriz Catherine Deneuve e outras 99 francesas lançaram um manifesto anti-feminista. Aqui no Brasil, Danuza Leão assinou sua coluna no O Globo dizendo que “toda mulher deveria ser assediada pelo menos três vezes por semana para ser feliz”. Sobre isso, Cacau desabafa:

“Para mim é muito difícil ler isso, ver isso e estar conversando isso com vocês agora… Isso é real? As pessoas ainda estão pensando assim? Várias manas estão desde 1980 lutando para a libertação do feminino e para que a sociedade enxergue o potencial do sagrado feminino como um todo. Então, ouvir isso para mim é um retrocesso muito grande.”

Apesar disso, Amanda enxerga que hoje, pelo menos, existe a possibilidade de se debater o privilégio de poder que o homem tem em nossa sociedade patriarcal e os costumes machistas dela.  “Antigamente, no seu bairro, a freira dizia que você não podia fazer aquilo e acabou. Agora, a gente tem várias plataformas para discutir e questionar o que foi dito dentro da escola, na rua. […] E a nossa sorte é que a gente tem a música como ferramenta para levar essa mensagem que chega de forma mais natural nas pessoas.”

Quando perguntadas sobre como debater com pessoas que pensam como Catherine e Danuza, elas disseram que é difícil. “É mulher brigando contra própria mulher”, lembra Naíra. “Quando um homem fala ‘que uma mulher não serve’, ela já está lá atrás. Agora, quando uma mulher fala isso, ela está muito atrás“, diz Cacau. Já Fer enfatiza a música e o dialogo como caminhos para questionar. “Pensando como banda, como artista, a gente tem que ascender uma faísca fazendo uma música ou um discurso para que isso gere discussão.”

Apesar de discursos retrógrados, Naíra percebe o aumento de mulheres que abraçam e se identificam com o feminismo. “Ou elas aprendem de forma ruim como em um relacionamento agressivo ou é de forma mais natural através de uma música, de uma peça. Mas, infelizmente, a maioria das minhas amigas, por exemplo, aprendem pelo jeito ruim”. Mas não é um processo rápido, Caro fala da dificuldade da mulher em sair de relacionamentos abusivos. “Para ela, é confortável porque ela não enxerga o que está acontecendo. Ela pensa que isso é o certo, não vê o problema.”

Foi com o videoclipe de “P.U.T.A.”, gravado no Hai Studio, que elas ganharam maior visibilidade no final de 2016. No entanto, a história da banda se inicia em dezembro de 2015 quando Amanda e Naíra tiveram a ideia de fazer um show cantando Cássia Eller e convidaram as outras meninas. Amanda lembra que elas pensaram “ah, vamos fazer um ‘botecão’, tomar uma cerveja, um bando de sapatão, vamos fazer um som só de mulheres? Vamos!” O resultado não poderia ter sido diferente. “O bar deu muita mulher que queria ouvir Cassia Eller e ver mulheres tocando.” Fer ainda completa brincando que “era para garantir o presente da mãe no Natal”. Naíra diz que foi tudo tão empolgante que logo após as festas de fim de ano elas começaram a rascunhar nomes para a banda.

A trajetória autoral delas teve inicio com o lançamento de um vídeo no YouTube. Com a Pedra do Arpoador de cenário, elas gravaram a primeira versão da música “Mulamba” quando vieram ao Rio de Janeiro para cantar no aniversário de uma amiga em abril de 2016. Mas não pense que houve muito planejamento nisso, elas disseram que nunca pensam em nada. A Fer até revelou que elas se assustam com tudo o que tem acontecido.

A letra de “Mulamba” foi composta algumas semanas antes dessa viagem quando “uma mulher sem nome, sem RG” foi esquartejada no bairro da Amanda. “É a urgência de colocar para fora. Esse caso mexeu e ainda mexe muito comigo”. Nesse momento, ela levou um esboço da letra da música até Cacau.

Segundo Naíra, “foram uns 20 mil views rapidamente” nesse clipe descontraído na Pedra do Arpoador, mas, até então, a banda ainda não tinha “se ligado” em tudo o que estava acontecendo. “Somente em P.U.T.A que a banda se ligou, pois ainda estávamos com o pensamento de uma banda cover”. Aliás, são mais de 1 milhão de visualizações no Youtube.

Parceria com a Francisco, el Hombre e a música independente brasileira

Eles se conheceram no festival Coolritiba quando as bandas se apresentaram no palco Arnika – que é um núcleo de compositores e artistas curitibanos como Trombone de Frutas, Tuyo e Lemoskine – a partir da “ponte” feita pela Letícia Martins, produtora das meninas. “Sabe aquela impressão de que ‘já nos conhecemos’? E é muito legal porque eles vão puxando a gente”, conta Fer. Depois desse encontro, Mulamba e Francisco, el Hombre já se reencontram no palco do Vento Festival e  Juliana Strassacapa, uma das integrantes da Francisco, el Hombre, cantou recentemente no show das meninas no SESC Bom Retiro, em São Paulo.

A música independente brasileira

Para Cacau, a atual música independente brasileira se faz necessária. “Eu quero muito que esse movimento da musica independente brasileira de hoje com tantas almas maravilhosas falando de coisas necessárias seja atemporal como ‘Garota de Ipanema’”. Já Amanda se lembra de Chico César que “é um cara atemporal. Lá atrás ele já falava de coisas que a gente quer dizer hoje”.

Fer reforça a união da cena independente atual. “As bandas de agora se potencializam, por exemplo, elas chamam para tocar junto, indicam para eventos.” Já Caro fala do poder de divulgação na internet. “A gente tem inspirado outras minas mais novas para colocar as músicas delas na internet. […] Hoje, você coloca no Youtube e tem 500 pessoas vendo o seu vídeo, sabe? […] Então, as pessoas vão expondo as ideais. Você pode não estourar, mas tem seu material exposto.”

Nesse momento, conversamos sobre outras influências delas e o que elas escutam em suas playlists. Olha, elas são bem ecléticas. “É melhor nem perguntar…” brinca Naíra, que estava olhando suas músicas no celular e indicou Biltre, SIM e Tuyo. Já suas parceiras de bandas citaram: Bernardo Braulio, Castello Branco, Dandara e Paulo Monarco, Fafá de Belém, Horrorosas Desprezíveis, Linn da Quebrada, Metá Metá, Mulheres de Buço, Nina Simone, Orquestra Friorenta (Amanda e Naíra também fazem parte), Roberta Miranda, Tati Quebra Barraco, Valesca Popozuda, muito funk e rap. “E por aí vai”, termina Caro.

Mulamba no WebFestValda 2017. (Foto: Jéssica Riquena)

Próximos passos…

Elas ainda possuem um show autoral curto. Com oito musicas autorais, a duração é de aproximadamente 45 minutos, no entanto, isso está próximo de mudar porque tem um CD vindo por aí. Elas participaram do festival O Vento e, através do voto popular, conquistaram a gravação de um disco na Red Bull Station. “As gravações se iniciam em março e seja o que as Deusas quiserem”, brinca Caro.

Em 2018, também tem gente nova entrando no projeto. Érica Silva chega para participar da produção desse trabalho. Caro conta que ela é baixista, mas toca de tudo e tem vontade de ajudar. “Ela acabou se apaixonando por nós e nós por ela”. Fer ainda completa dizendo que “é uma vontade contagiante.” Inclusive no show do Circo Voador, Erika assumiu a guitarra no lugar de Nat Fragoso que deixou a banda para seguir outros voos.

As meninas da Mulamba seguem conquistando novos públicos, além de levar uma mensagem mais que necessária. Deve ser por isso que as Deusas estão ajudando mesmo. “ As coisas estão acontecendo naturalmente”, conclui Caro.

* Relembre notícias da banda aqui no blog:

LINK 1: As bandas selecionadas para o WebFestValda #2.

LINK 2: Deixa o som te levar. (A cobertura do WebFestValda 2017).

LINK 3: Serviço Completo #3 (Lançamento do clipe de “Mulamba”).